Sinto falta de quando, em mim, a fome não se esvaía,
e às catorze horas da tarde o sono não me rendia —
era o tempo ainda dócil, quase casto,
antes que a ausência aprendesse a me habitar.
Hoje, tudo é turvo e grave.
Há em meu peito uma ânsia — densa, lancinante
de um beijo teu que já não me pertence,
enquanto tu, em tua quietude,
já não pareces sequer lembrar.
Recordo-me — com pungente exatidão —
de cada toque, cada promessa sussurrada,
do teu doce “eu te amo”, outrora tão vívido,
e agora míngua, rarefeito,
qual eco que se perde nos confins da memória.
Minha tristeza verte como a chuva antiga:
não irrompe — infiltra-se.
Cai lenta, metódica, inevitável,
alagando os recantos onde ainda repousa
a tua falta.
Deixaste-me em um tempo que já não é o teu —
como se houvéssemos sido apartados por eras,
como se tu habitasses o porvir
e eu, condenado,
permanecesse no pretérito que partilhamos.
Hoje, sou qual livro olvidado em prateleira
minhas páginas, outrora lidas com fervor,
jazem fechadas, silentes,
revestidas do pó que o desdém deposita.
E tu
tu és obra recente, intocada,
de lombada firme e promessa viva,
oferecida a novos olhos,
a mãos que ainda não te conhecem as margens.
Enquanto eu, que fui teu predileto,
tornei-me vestígio — quase ruína —
de um afeto que não resistiu ao tempo.
Ah, se meu peito lograsse voz,
confessaria, com dolorosa candura,
a saudade de teus beijos,
do afago lento, do mundo que, contigo,
parecia desacelerar.
Mas diria também — e sem véus —
que não anseia pela tua frieza,
nem pela distância que, insidiosa,
ergueu-se entre nós como abismo irrevogável.
Fui ingênuo — pueril, talvez —
ao crer em um “para sempre”
que o tempo, implacável,
tratou de dissolver.
E assim permaneço:
entre páginas não revisitadas,
numa espera que já sabe se vai —
pois tu, sem olhar para trás,
já deste por encerrada
a nossa história.
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Autor:
Luana.amorim@ (
Offline) - Publicado: 25 de abril de 2026 14:59
- Categoria: Não classificado
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