Luana.amorim@

A tua falta.

Sinto falta de quando, em mim, a fome não se esvaía,

e às catorze horas da tarde o sono não me rendia —

era o tempo ainda dócil, quase casto,

antes que a ausência aprendesse a me habitar.

Hoje, tudo é turvo e grave.

Há em meu peito uma ânsia — densa, lancinante 

de um beijo teu que já não me pertence,

enquanto tu, em tua quietude,

já não pareces sequer lembrar.

Recordo-me — com pungente exatidão —

de cada toque, cada promessa sussurrada,

do teu doce “eu te amo”, outrora tão vívido,

e agora míngua, rarefeito,

qual eco que se perde nos confins da memória.

Minha tristeza verte como a chuva antiga:

não irrompe — infiltra-se.

Cai lenta, metódica, inevitável,

alagando os recantos onde ainda repousa

a tua falta.

Deixaste-me em um tempo que já não é o teu —

como se houvéssemos sido apartados por eras,

como se tu habitasses o porvir

e eu, condenado,

permanecesse no pretérito que partilhamos.

Hoje, sou qual livro olvidado em prateleira 

minhas páginas, outrora lidas com fervor,

jazem fechadas, silentes,

revestidas do pó que o desdém deposita.

E tu 

tu és obra recente, intocada,

de lombada firme e promessa viva,

oferecida a novos olhos,

a mãos que ainda não te conhecem as margens.

Enquanto eu, que fui teu predileto,

tornei-me vestígio — quase ruína —

de um afeto que não resistiu ao tempo.

Ah, se meu peito lograsse voz,

confessaria, com dolorosa candura,

a saudade de teus beijos,

do afago lento, do mundo que, contigo,

parecia desacelerar.

Mas diria também — e sem véus —

que não anseia pela tua frieza,

nem pela distância que, insidiosa,

ergueu-se entre nós como abismo irrevogável.

Fui ingênuo — pueril, talvez —

ao crer em um “para sempre”

que o tempo, implacável,

tratou de dissolver.

E assim permaneço:

entre páginas não revisitadas,

numa espera que já sabe se vai —

pois tu, sem olhar para trás,

já deste por encerrada

a nossa história.