Sem forma

Lauraa

sem forma:

 

Paredes tortas me viram nascer,  

ruas longas me ensinaram a andar.  

Espelhos quebrados não sabem dizer  

quem sou quando tento me nomear.  

 

Tapetes sujos guardam meus passos,  

mas não dizem do que sou feita.  

Filha de mãe e pai, laços e abraços,  

amor de um, amizade desfeita e refeita.  

 

Querida por tantos, mas quem sou eu  

se tirarem os nomes que me deram?  

Meu rosto é passageiro, o teu também,  

e o tempo leva tudo que escreveram.  

 

Então guarda isso: minha presença,  

minha energia que fica contigo.  

Sou mais que matéria, mais que crença,  

mais que o além onde abrigo.  

 

Sou o branco limpo depois da chuva,  

borboletas que dançam sem direção.  

Sou cheiro de pão quando a fome é crua,  

sou vento que acalenta em noite de luar e chão.  

 

Leitor, leva minhas palavras se quiser,  

ou deixa que se percam no esquecimento.  

Não é sobre parecer, nem sobre ser.  

É sobre existir, mesmo sem documento.  

 

Se existo, não preciso de forma,  

nem de rosto, nem de contorno, nem de ar.  

Basta o sentir que não se conforma  

e que teima em continuar.

Comentários +

Comentários3

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poetisa! A autora começa desconstruindo as definições externas. Ela cita a casa (paredes tortas), a linhagem (filha de mãe e pai) e os nomes recebidos, mas conclui que nada disso define sua essência. O verso: quem sou eu se tirarem os nomes que me deram? É o coração da obra, sugerindo que somos condicionados a nos enxergar apenas através dos olhos dos outros e do passado. Há um forte contraste entre o que é sólido (espelhos, tapetes, rostos) e o que é fluido (energia, vento, cheiro de pão). A autora argumenta que a matéria é passageira e o tempo leva tudo. Para ela, a identidade real não está no que se pode tocar ou documentar, mas na percepção sensorial e na energia que deixamos nas pessoas. No fechamento, o poema atinge uma nota de libertação. Ao dizer que a existência não precisa de forma, a autora desobriga o ser de se encaixar em moldes. O ato de existir é reduzido ao puro sentir e à resiliência (o sentir que não se conforma). É um convite ao leitor para valorizar a experiência de estar vivo acima das aparências ou títulos formais. Parabéns por seu poema! Saudações poéticas.






  • Ultracrepidário

  • Ultracrepidário

    Esse texto ficou extremamente bom.



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