sem forma:
Paredes tortas me viram nascer,
ruas longas me ensinaram a andar.
Espelhos quebrados não sabem dizer
quem sou quando tento me nomear.
Tapetes sujos guardam meus passos,
mas não dizem do que sou feita.
Filha de mãe e pai, laços e abraços,
amor de um, amizade desfeita e refeita.
Querida por tantos, mas quem sou eu
se tirarem os nomes que me deram?
Meu rosto é passageiro, o teu também,
e o tempo leva tudo que escreveram.
Então guarda isso: minha presença,
minha energia que fica contigo.
Sou mais que matéria, mais que crença,
mais que o além onde abrigo.
Sou o branco limpo depois da chuva,
borboletas que dançam sem direção.
Sou cheiro de pão quando a fome é crua,
sou vento que acalenta em noite de luar e chão.
Leitor, leva minhas palavras se quiser,
ou deixa que se percam no esquecimento.
Não é sobre parecer, nem sobre ser.
É sobre existir, mesmo sem documento.
Se existo, não preciso de forma,
nem de rosto, nem de contorno, nem de ar.
Basta o sentir que não se conforma
e que teima em continuar.