ONDE NASCE A POESIA

Sezar Kosta

A poesia não começa na palavra,

mas no instante antes dela —

quando o silêncio respira devagar

e o mundo parece caber

na palma de um pensamento.

 

Ela nasce como luz atravessando cortinas,

desenhando formas no chão

que ninguém ensinou a ver.

É quase nada —

um sopro, um brilho,

um desvio do olhar.

 

Há dias em que vem como água mansa,

escorrendo pelas mãos distraídas,

e outros em que é semente teimosa,

esperando a coragem da terra

para romper o escuro.

 

Criar é escutar o invisível,

é recolher pedaços de céu

que caíram dentro do peito

sem fazer barulho.

 

E então, com cuidado de quem acende estrelas,

o poeta organiza o caos em canto,

transforma o que não tinha forma

em um lugar onde alguém pode morar.

 

No fim, a poesia não se escreve —

ela acontece:

como um vento leve

que encontra, por acaso,

um coração aberto.

  • Autor: Sezar Kosta (Offline Offline)
  • Publicado: 23 de abril de 2026 14:31
  • Comentário do autor sobre o poema: A arte da criação não se inicia no teclado ou no papel, mas naquele milésimo de segundo em que o barulho do mundo silencia e a nossa percepção se expande. É como um "insight" que ilumina o óbvio, revelando belezas discretas que a rotina costuma esconder de quem tem pressa. Escrever é o esforço delicado de organizar o caos interno, transformando sentimentos abstratos em um refúgio sólido onde o outro possa finalmente se sentir compreendido. No fundo, a verdadeira inspiração é um evento espontâneo: ela apenas atravessa quem parou de resistir e aceitou o convite de sentir o invisível.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 10
  • Usuários favoritos deste poema: Sezar Kosta
  • Em coleções: Poesias Líricas.
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! O autor defende que a poesia preexiste à escrita. Ela começa no instante antes, no silêncio e no desvio do olhar. Isso sugere que a sensibilidade poética é uma forma de atenção ao mundo, uma capacidade de enxergar o que é quase nada (a luz na cortina, o sopro) antes mesmo de transformar isso em verso. A criação é descrita como um ato de escuta e paciência, não de esforço bruto. As metáforas da água mansa e da semente teimosa mostram que a inspiração tem ritmo próprio — ora flui, ora exige a coragem da terra (o esforço do poeta em lidar com o escuro ou a página em branco). O fechamento do poema é acolhedor. O poeta é comparado a alguém que organiza o caos para criar um lugar de abrigo para o outro. A ideia final de que a poesia acontece quando encontra um coração aberto retira o poder apenas das mãos de quem escreve e o compartilha com quem lê, transformando o poema em um evento de conexão humana. Parabéns por seu poema! Saudações poéticas.



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