A poesia não começa na palavra,
mas no instante antes dela —
quando o silêncio respira devagar
e o mundo parece caber
na palma de um pensamento.
Ela nasce como luz atravessando cortinas,
desenhando formas no chão
que ninguém ensinou a ver.
É quase nada —
um sopro, um brilho,
um desvio do olhar.
Há dias em que vem como água mansa,
escorrendo pelas mãos distraídas,
e outros em que é semente teimosa,
esperando a coragem da terra
para romper o escuro.
Criar é escutar o invisível,
é recolher pedaços de céu
que caíram dentro do peito
sem fazer barulho.
E então, com cuidado de quem acende estrelas,
o poeta organiza o caos em canto,
transforma o que não tinha forma
em um lugar onde alguém pode morar.
No fim, a poesia não se escreve —
ela acontece:
como um vento leve
que encontra, por acaso,
um coração aberto.