QUANDO A MORTE MORRER

joaquim cesario de mello

 

Quando a morte morrer

quem virá reclamar o silêncio?

Quem recolherá os cacos

que deixamos cair pelo caminho?

 

Quando a morte morrer

o escuro perderá seu ofício

e a noite não será mais fundo

mas apenas outra forma de ver

 

Quando a morte morrer

os segundos deixarão de ir

e o tempo, desobediante

se espalhará pelo chão do mundo

 

Quando a morte morrer

os cemitérios virarão jardins sem nomes

e ninguém mais precisará aprender

o idioma do adeus

 

Quando a morte morrer

seremos vastos demais

a aprender devagar

como caber no infinito

 

 

 

 

 

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Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! O poema subverte a ideia da morte como o grande final. Ao personificá-la e sugerir que ela mesma pode morrer, propõe um estado de existência onde o medo e a separação deixam de existir. O trecho: os segundos deixarão de ir / e o tempo, desobediente / se espalhará pelo chão do mundo sugere que, sem o limite da morte, o tempo perde sua função linear e opressora. Ele deixa de ser uma contagem regressiva para se tornar uma presença vasta e estática. A transformação de cemitérios em jardins retira o peso do luto e do rótulo da perda. O fim da morte implica o fim da despedida. O autor sugere que a comunicação humana será baseada na presença eterna, eliminando a necessidade de aprender a dizer adeus. Na última estrofe, o poema toca no sublime: Seremos vastos demais / a aprender devagar / como caber no infinito. A vida eterna não é apresentada como algo fácil ou imediato, mas como um aprendizado de expansão da própria alma para preencher um espaço que antes era limitado pela mortalidade. Meu abraço fraterno.

    • joaquim cesario de mello

      Belo comentário e interpretação, Vilma. Muito obrigado pela gentileza



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