A Sétima Noite do Nunca Mais

Francisco Monteiro

Aquele dia.
Qualquer?
Não.
Vi mil amanheceres sem nunca dormir.
Cada aurora é uma mentira de ouro.
O universo não conspira —
ele agoniza nos pequenos tiques do relógio.
Na fratura miúda entre um instante e o nada,
um ciclo expirou.
Como um saxofone desafinado.
Num beco sem saída.
E ninguém estava ouvindo.

Ela estava ali.
Pequena.
Olhos de confusão.
Não sabia o alfabeto da perda.
Ninguém sabe.
Nós apenas tateamos o escuro
com dedos de cera.

Tu sabias.
Tu sempre soubeste, poeta das madrugadas órfãs:
nada voltaria a ser como antes.
E as coisas...
as coisas nunca mais seriam as mesmas.
Porque "as mesmas" é um endereço
que o tempo demoliu
enquanto tu bebias.

Nunca estamos prontos.
Nunca.
O fim é um mestre que não aceita atrasos.
Ele chega sem bater.
Não tira os sapatos.

Senta na tua cama.
 A cama onde sonhaste filhos, viagens, perdões.
Acende um cigarro com tua última esperança.
A brasa ilumina o rosto dele por um segundo:
é o teu próprio rosto, mas mais velho. Mais cansado. Mais verdadeiro.

E ele diz, baixo — tão baixo que parece um pensamento teu:

"Teu tempo acabou há sete noites.
Tu só não tinha percebido."

 

Francisco Monteiro

 

 

 

  • Autor: Francisco Monteiro (Offline Offline)
  • Publicado: 18 de abril de 2026 20:24
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


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