Francisco Monteiro

A Sétima Noite do Nunca Mais

Aquele dia.
Qualquer?
Não.
Vi mil amanheceres sem nunca dormir.
Cada aurora é uma mentira de ouro.
O universo não conspira —
ele agoniza nos pequenos tiques do relógio.
Na fratura miúda entre um instante e o nada,
um ciclo expirou.
Como um saxofone desafinado.
Num beco sem saída.
E ninguém estava ouvindo.

Ela estava ali.
Pequena.
Olhos de confusão.
Não sabia o alfabeto da perda.
Ninguém sabe.
Nós apenas tateamos o escuro
com dedos de cera.

Tu sabias.
Tu sempre soubeste, poeta das madrugadas órfãs:
nada voltaria a ser como antes.
E as coisas...
as coisas nunca mais seriam as mesmas.
Porque \"as mesmas\" é um endereço
que o tempo demoliu
enquanto tu bebias.

Nunca estamos prontos.
Nunca.
O fim é um mestre que não aceita atrasos.
Ele chega sem bater.
Não tira os sapatos.

Senta na tua cama.
 A cama onde sonhaste filhos, viagens, perdões.
Acende um cigarro com tua última esperança.
A brasa ilumina o rosto dele por um segundo:
é o teu próprio rosto, mas mais velho. Mais cansado. Mais verdadeiro.

E ele diz, baixo — tão baixo que parece um pensamento teu:

\"Teu tempo acabou há sete noites.
Tu só não tinha percebido.\"

 

Francisco Monteiro