O passo que não fura o chão
é o mais pesado de todos.
Mora num átimo, num hiato faminto,
onde o verbo não dobra a esquina
e o fôlego morre antes de virar oxigênio.
Eu iria. Mas o "iria" é só um pensar,
um lapso que se torna invisível.
É o luxo de ser tudo, sendo porra nenhuma,
uma promessa que se alimenta do próprio silêncio
para não ter que encarar o erro ou resposta da forma.
Quase.
A palavra mais suja do dicionário.
Um curto-circuito que não gera faísca,
apenas o cheiro de queimado do que poderia ter sido.
É o conforto covarde da dúvida,
onde a resposta é assassinada no berço
para que o aprendizado não nos roube a inocência.
Não há passo sem andar, não há risco se você nunca pular,
mas também não há chão se nunca olhar e acreditar.
Apenas essa estátua de fumaça,
erguida sobre a euforia do "pensei em realizar",
celebrando o triunfo do nada
sobre o risco de existir.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 12 de abril de 2026 23:34
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Shmuel

Offline)
Comentários2
Profundo parabéns!
Um lindo poema!
As palavras aqui parecem brocas de diamantes que tentam perfurar superfícies duras.
Abraços
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