Amnésia do tentar

Anna Gonçalves

O passo que não fura o chão

é o mais pesado de todos.

Mora num átimo, num hiato faminto,

onde o verbo não dobra a esquina

e o fôlego morre antes de virar oxigênio.

 

Eu iria. Mas o "iria" é só um pensar,

um lapso que se torna invisível.

É o luxo de ser tudo, sendo porra nenhuma,

uma promessa que se alimenta do próprio silêncio

para não ter que encarar o erro ou resposta da forma.

Quase.

A palavra mais suja do dicionário.

Um curto-circuito que não gera faísca,

apenas o cheiro de queimado do que poderia ter sido.

É o conforto covarde da dúvida,

onde a resposta é assassinada no berço

para que o aprendizado não nos roube a inocência.

Não há passo sem andar, não há risco se você nunca pular,

mas também não há chão se nunca olhar e acreditar.

Apenas essa estátua de fumaça,

erguida sobre a euforia  do "pensei em realizar",

celebrando o triunfo do nada

sobre o risco de existir.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 12 de abril de 2026 23:34
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Shmuel
Comentários +

Comentários2

  • Thais De Oliveira

    Profundo parabéns!

  • Shmuel

    Um lindo poema!
    As palavras aqui parecem brocas de diamantes que tentam perfurar superfícies duras.

    Abraços



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