Anna Gonçalves

Amnésia do tentar

O passo que não fura o chão

é o mais pesado de todos.

Mora num átimo, num hiato faminto,

onde o verbo não dobra a esquina

e o fôlego morre antes de virar oxigênio.

 

Eu iria. Mas o \"iria\" é só um pensar,

um lapso que se torna invisível.

É o luxo de ser tudo, sendo porra nenhuma,

uma promessa que se alimenta do próprio silêncio

para não ter que encarar o erro ou resposta da forma.

Quase.

A palavra mais suja do dicionário.

Um curto-circuito que não gera faísca,

apenas o cheiro de queimado do que poderia ter sido.

É o conforto covarde da dúvida,

onde a resposta é assassinada no berço

para que o aprendizado não nos roube a inocência.

Não há passo sem andar, não há risco se você nunca pular,

mas também não há chão se nunca olhar e acreditar.

Apenas essa estátua de fumaça,

erguida sobre a euforia  do \"pensei em realizar\",

celebrando o triunfo do nada

sobre o risco de existir.