Ele encontrou uma carta que nunca foi enviada
Papel amarelado, caligrafia inventada
Lê em voz baixa, como se alguém confessasse
Que tudo o que ele teme, enfim, se confirmasse
No fundo do peito, um carimbo acusador
“Eu já sabia”, sussurra o seu próprio pavor
Cada palavra é um espelho mal-afeiçoado
Onde ele só enxerga o que já tinha imaginado
E se ninguém escreveu nada assim?
Pouco importa, ele assina o fim
É uma carta que ele mesmo escreveu
Sem caneta, sem remetente
Só com medo, tinta permanente
É uma carta que ele mesmo escreveu
E agora lê como sentença
Da própria desconfiança
Na mesa, o silêncio faz ruído de metal
Talheres batendo, um olhar meio normal
Mas ele traduz cada gesto em crítica velada
Como se o mundo inteiro fosse trama ensaiada
E se o amor ainda estiver ali?
Ele prefere a teoria do que admitir
É uma carta que ele mesmo escreveu
Num idioma de desconfiança
Onde qualquer sorriso é cobrança
É uma carta que ele mesmo escreveu
E, quanto mais ele a relê
Mais vira verdade o que não é
Ele bate o pé no chão, diz que viu, que previu, que sentiu
Mas a prova maior do crime
É o medo que ele nunca viu em si
Testemunha, juiz e réu, tudo num corpo só
Condenando o que poderia ser melhor
Essa carta que ele mesmo escreveu
Vai queimando devagar
Mas a fumaça sobe
E custa a dissipar
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Autor:
Quietanto (
Offline) - Publicado: 12 de abril de 2026 21:37
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 12

Offline)
Comentários3
Somos responsáveis por tudo aquilo que escrevemos.
Abraços
É uma confissão em voz baixa: a história de alguém que acredita mais nas próprias paranoias do que no que o mundo realmente diz. Inspirada em El arte de amargarse la vida, de Paul Watzlawick, sobre como a gente cria provas para medos que só existem na cabeça.
Bela escrita e confissão. Que teu eu lírico encontre o destino da carta.
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