Ele encontrou uma carta que nunca foi enviada
Papel amarelado, caligrafia inventada
Lê em voz baixa, como se alguém confessasse
Que tudo o que ele teme, enfim, se confirmasse
No fundo do peito, um carimbo acusador
“Eu já sabia”, sussurra o seu próprio pavor
Cada palavra é um espelho mal-afeiçoado
Onde ele só enxerga o que já tinha imaginado
E se ninguém escreveu nada assim?
Pouco importa, ele assina o fim
É uma carta que ele mesmo escreveu
Sem caneta, sem remetente
Só com medo, tinta permanente
É uma carta que ele mesmo escreveu
E agora lê como sentença
Da própria desconfiança
Na mesa, o silêncio faz ruído de metal
Talheres batendo, um olhar meio normal
Mas ele traduz cada gesto em crítica velada
Como se o mundo inteiro fosse trama ensaiada
E se o amor ainda estiver ali?
Ele prefere a teoria do que admitir
É uma carta que ele mesmo escreveu
Num idioma de desconfiança
Onde qualquer sorriso é cobrança
É uma carta que ele mesmo escreveu
E, quanto mais ele a relê
Mais vira verdade o que não é
Ele bate o pé no chão, diz que viu, que previu, que sentiu
Mas a prova maior do crime
É o medo que ele nunca viu em si
Testemunha, juiz e réu, tudo num corpo só
Condenando o que poderia ser melhor
Essa carta que ele mesmo escreveu
Vai queimando devagar
Mas a fumaça sobe
E custa a dissipar