Meu profundo afeto

V. Pacheco

Não beijei teus lábios,

mas senti teu sabor.

Não te toquei com meus dedos,

mas a quentura da tua pele

ficou marcada em minhas mãos.

Nem sequer me acheguei a ti,

mas ouço as batidas do teu coração.

Tua voz distante

embala meus ouvidos

como sinfonia única

que Beethoven jamais escreveria.

Quando te vejo,

um véu me cai dos olhos —

pareces sempre uma revelação.

Pedra de jade,

a mais pura

que pude encontrar.

E, letra a letra, te formei poesia.

E ainda estou longe

de conseguir descrever

tal formosura

que me faz de qualquer outra coisa esquecer.

Escultura em Carrara,

tão bem desenhada,

tão bem feita...

Mui afortunado será

aquele que obtiver

tamanha riqueza.

 

Mas devo tomar tal cuidado:

tua beleza esconde também um enfado.

Também tens teus pecados

e teus trejeitos indelicados.

Não dá pra ter-te

ou querer-te por metade.

Se vens,

vens com toda a tua bagagem.

E ai de mim, fraco,

que mal me sustento —

abstenho-me de mim

a fim de carregar o que é teu.

Se é que assim terás alívio,

então ficarei bem,

ainda que castigues minhas costas

com teu peso.

Amar-te-ei profundamente,

sem direito à volta...

 

Porém, se um dia me maltratares,

seguirei caminho sem ti —

mesmo que te carregue em meu peito.

E, como pássaro engaiolado,

ficarás presa em minhas memórias.

Deixo ali o que é teu

e um pedaço meu,

pra te lembrares da minha entrega devota,

da qual tu não apreciaste

nem fizeste questão de corresponder.

Então, faz-me teu profundo amor:

cuida de mim com teu carinho,

abraça meus cacos.

Se eu te tiver,

tu me terás.

E, me tendo, serei teu.

E, sendo teu,

tu serás minha —

e de mais ninguém.

  • Autor: Poetisa do amanhã (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 10 de abril de 2026 00:09
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1
  • Em coleções: Sobre o amor.


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