Não beijei teus lábios,
mas senti teu sabor.
Não te toquei com meus dedos,
mas a quentura da tua pele
ficou marcada em minhas mãos.
Nem sequer me acheguei a ti,
mas ouço as batidas do teu coração.
Tua voz distante
embala meus ouvidos
como sinfonia única
que Beethoven jamais escreveria.
Quando te vejo,
um véu me cai dos olhos —
pareces sempre uma revelação.
Pedra de jade,
a mais pura
que pude encontrar.
E, letra a letra, te formei poesia.
E ainda estou longe
de conseguir descrever
tal formosura
que me faz de qualquer outra coisa esquecer.
Escultura em Carrara,
tão bem desenhada,
tão bem feita...
Mui afortunado será
aquele que obtiver
tamanha riqueza.
Mas devo tomar tal cuidado:
tua beleza esconde também um enfado.
Também tens teus pecados
e teus trejeitos indelicados.
Não dá pra ter-te
ou querer-te por metade.
Se vens,
vens com toda a tua bagagem.
E ai de mim, fraco,
que mal me sustento —
abstenho-me de mim
a fim de carregar o que é teu.
Se é que assim terás alívio,
então ficarei bem,
ainda que castigues minhas costas
com teu peso.
Amar-te-ei profundamente,
sem direito à volta...
Porém, se um dia me maltratares,
seguirei caminho sem ti —
mesmo que te carregue em meu peito.
E, como pássaro engaiolado,
ficarás presa em minhas memórias.
Deixo ali o que é teu
e um pedaço meu,
pra te lembrares da minha entrega devota,
da qual tu não apreciaste
nem fizeste questão de corresponder.
Então, faz-me teu profundo amor:
cuida de mim com teu carinho,
abraça meus cacos.
Se eu te tiver,
tu me terás.
E, me tendo, serei teu.
E, sendo teu,
tu serás minha —
e de mais ninguém.