Exausto

Oswaldo Jesus Motta

Exausto de quem sorri só com os dentes

e esconde a alma no bolso da calça.

Exausto das vozes que mandam

sem nunca terem se ouvido —

autoridades de vendaval, firmes no vazio.

Exausto dos laços frouxos,

que se chamam casa

mas marcam o chão como móveis mal colocados.

Há braços que não aquecem.

Há palavras que se perdem antes de se encontrarem.

Exausto das janelas abertas

onde o olhar entra limpo e sai manchado —

como se o mundo fosse sempre poeira

e ninguém lembrasse de lavar as mãos.

Exausto dos que crescem no salto,

equilibrados na própria altura,

incapazes de dobrar o joelho

para encontrar outro olho.

Exausto, incinerado

por ferozes julgamentos,

do amor que passa ao lado

como se tivesse endereço errado.

Exausto dos que se justificam tanto

que nem sabem mais refletir —

nem sobre o outro, nem sobre si.

Exausto de cada palavra engolida,

de cada silêncio empurrado goela abaixo,

de cada vez que tentei caber e quase me perdi.

Hoje não.

O cansaço deixou de ser peso: virou lâmina.

E eu corto tudo que ousar me calar.

  • Autor: Oswaldo Jesus Motta (Offline Offline)
  • Publicado: 3 de abril de 2026 08:54
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 8
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Olá poeta! Boa noite! O verso sorri só com os dentes / e esconde a alma no bolso, define perfeitamente a falsidade social. É a exaustão de lidar com o que é superficial e calculado. A expressão: autoridades de vendaval, firmes no vazio é cirúrgica. Retrata pessoas que impõem regras e ordens, mas não possuem substância interna ou autoconhecimento (sem nunca terem se ouvido). A metáfora dos laços frouxos que marcam o chão como móveis mal colocados é visual e dolorosa. Mostra que o que deveria ser refúgio (casa) tornou-se apenas um arranjo desconfortável e estético. O trecho sobre os que crescem no salto e são incapazes de dobrar o joelho para encontrar outro olho, ilustra a arrogância que impede a conexão real, olho no olho, no mesmo nível. O final é o clímax da força. O eu-lírico para de tentar caber (se moldar ao outro) e transforma o peso do cansaço em uma ferramenta de corte. Não é mais sobre suportar, é sobre extirpar o que o sufoca. Parabéns pelo poema! Abraço poético!

    • Oswaldo Jesus Motta

      Ótima noite e muito obrigado, poeta! Saúde e paz! Abraços poéticos! Volte sempre... por favor... risos



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