Exausto de quem sorri só com os dentes
e esconde a alma no bolso da calça.
Exausto das vozes que mandam
sem nunca terem se ouvido —
autoridades de vendaval, firmes no vazio.
Exausto dos laços frouxos,
que se chamam casa
mas marcam o chão como móveis mal colocados.
Há braços que não aquecem.
Há palavras que se perdem antes de se encontrarem.
Exausto das janelas abertas
onde o olhar entra limpo e sai manchado —
como se o mundo fosse sempre poeira
e ninguém lembrasse de lavar as mãos.
Exausto dos que crescem no salto,
equilibrados na própria altura,
incapazes de dobrar o joelho
para encontrar outro olho.
Exausto, incinerado
por ferozes julgamentos,
do amor que passa ao lado
como se tivesse endereço errado.
Exausto dos que se justificam tanto
que nem sabem mais refletir —
nem sobre o outro, nem sobre si.
Exausto de cada palavra engolida,
de cada silêncio empurrado goela abaixo,
de cada vez que tentei caber e quase me perdi.
Hoje não.
O cansaço deixou de ser peso: virou lâmina.
E eu corto tudo que ousar me calar.