A MESA QUE NOS REFAZ NA PÁSCOA

Sezar Kosta

Há uma hora mansa no dia

em que o mundo parece pedir silêncio —

como se algo antigo, esquecido,

quisesse finalmente ser ouvido.

 

É nesse instante que preparo a mesa,

não com pressa,

mas com a atenção de quem compreende

que certos encontros não se repetem iguais.

 

Sobre ela, não deposito excessos:

apenas o necessário para existir de verdade.

 

O pão chega primeiro, ainda morno,

com o cheiro simples das coisas que não mentem.

Parto-o devagar,

porque aprendi que a verdade, inteira,

pode ser dura demais para quem ainda tem fome de ilusão.

Divido em pequenos gestos,

em palavras que cabem no ouvido

sem ferir o coração.

 

Comemos juntos —

e há algo de sagrado nesse ato de não esconder.

 

Depois, sirvo o vinho.

Ele não disfarça seu gosto:

desce firme,

com uma sinceridade que não pede aprovação.

No primeiro gole, estranhamos.

No segundo, compreendemos:

a honestidade não foi feita para agradar,

mas para sustentar o que não pode desmoronar.

 

E, ainda assim, aquece.

Como um abraço que não precisa ser perfeito

para ser verdadeiro.

 

Entre um silêncio e outro,

surgem lembranças pequenas —

coisas ditas sem cuidado,

ausências que pesaram mais do que deveriam,

gestos que chegaram tarde demais.

 

Nada é varrido para longe.

Tudo é colocado à mesa,

não como culpa,

mas como caminho.

 

Então vem a parte mais delicada:

uma travessa simples, quase invisível,

onde repousam as desculpas.

 

Não são frágeis —

exigem coragem para serem servidas.

E o perdão, que as acompanha,

não tem o gosto fácil do esquecimento:

é uma doçura construída,

lenta, consciente,

que transforma sem apagar.

 

Provamos.

E algo dentro de nós

se rearranja com cuidado —

como se o coração aprendesse

uma nova forma de bater.

 

Ao final, não há aplausos,

nem promessas grandiosas.

 

Apenas um entendimento sereno:

a Páscoa não acontece fora,

nem depende de calendários.

 

Ela nasce aqui —

no instante exato

em que escolhemos viver sem máscaras,

dizer o que é inteiro,

e abrir espaço

para que o outro permaneça,

 

mesmo depois de saber quem somos.

  • Autor: Sezar Kosta (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de abril de 2026 15:07
  • Comentário do autor sobre o poema: A verdadeira renovação acontece quando desaceleramos e escolhemos ser honestos, mesmo que isso seja desconfortável no começo. Em vez de esconder falhas, aprendemos a encará-las com maturidade, transformando erros em oportunidades de reconexão. Falar a verdade com cuidado e ouvir com abertura cria vínculos mais fortes e reais. E é nesse processo — entre reconhecer, pedir perdão e recomeçar — que o amor se torna mais sólido e humano.
  • Categoria: Ocasião especial
  • Visualizações: 3
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