Há uma hora mansa no dia
em que o mundo parece pedir silêncio —
como se algo antigo, esquecido,
quisesse finalmente ser ouvido.
É nesse instante que preparo a mesa,
não com pressa,
mas com a atenção de quem compreende
que certos encontros não se repetem iguais.
Sobre ela, não deposito excessos:
apenas o necessário para existir de verdade.
O pão chega primeiro, ainda morno,
com o cheiro simples das coisas que não mentem.
Parto-o devagar,
porque aprendi que a verdade, inteira,
pode ser dura demais para quem ainda tem fome de ilusão.
Divido em pequenos gestos,
em palavras que cabem no ouvido
sem ferir o coração.
Comemos juntos —
e há algo de sagrado nesse ato de não esconder.
Depois, sirvo o vinho.
Ele não disfarça seu gosto:
desce firme,
com uma sinceridade que não pede aprovação.
No primeiro gole, estranhamos.
No segundo, compreendemos:
a honestidade não foi feita para agradar,
mas para sustentar o que não pode desmoronar.
E, ainda assim, aquece.
Como um abraço que não precisa ser perfeito
para ser verdadeiro.
Entre um silêncio e outro,
surgem lembranças pequenas —
coisas ditas sem cuidado,
ausências que pesaram mais do que deveriam,
gestos que chegaram tarde demais.
Nada é varrido para longe.
Tudo é colocado à mesa,
não como culpa,
mas como caminho.
Então vem a parte mais delicada:
uma travessa simples, quase invisível,
onde repousam as desculpas.
Não são frágeis —
exigem coragem para serem servidas.
E o perdão, que as acompanha,
não tem o gosto fácil do esquecimento:
é uma doçura construída,
lenta, consciente,
que transforma sem apagar.
Provamos.
E algo dentro de nós
se rearranja com cuidado —
como se o coração aprendesse
uma nova forma de bater.
Ao final, não há aplausos,
nem promessas grandiosas.
Apenas um entendimento sereno:
a Páscoa não acontece fora,
nem depende de calendários.
Ela nasce aqui —
no instante exato
em que escolhemos viver sem máscaras,
dizer o que é inteiro,
e abrir espaço
para que o outro permaneça,
mesmo depois de saber quem somos.