Eu não cabia em mim

Gilberto Lima

Durante muito tempo

pensei que eu morava atrás dos meus olhos,

preso na carne,

encerrado no limite dos ossos,

como alguém condenado

a assistir a vida por uma pequena janela.

 

Acreditei que eu era este corpo:

suas fadigas,

suas horas,

seus medos,

suas cicatrizes escondidas

sob a roupa e sob o nome.

 

Achei que existir

era caber dentro da pele,

era aceitar o contorno,

o peso,

a idade,

o espelho.

 

Mas um dia

algo em mim silenciou tão profundamente

que ouvi o que nunca fazia barulho.

E compreendi.

Eu não estava dentro do corpo.

Nunca estive.

O corpo era apenas margem.

Eu, rio.

O corpo era instrumento.

Eu, música.

O corpo era forma passageira,

e eu, a presença

que o atravessa sem se reduzir a ele.

Então vi:

não sou esta matéria que me veste,

nem o rosto que o tempo redesenha,

nem a voz que o mundo reconhece.

Sou aquilo que percebe.

Aquilo que testemunha.

Aquilo que permanece

mesmo quando tudo muda.

Sou consciência.

Não uma chama acesa

dentro de um vaso frágil,

mas o próprio espaço

onde a chama, o vaso e a noite aparecem.

Eu pensava ser um prisioneiro.

Hoje sei:

as grades eram apenas crenças

erguidas pelo costume.

Eu não estava trancado no corpo.

Era o corpo

que surgia em mim.

Porque a consciência

não cabe em lugar algum.

Não se fecha em carne,

não se limita em fronteiras,

não se curva ao mapa dos órgãos.

Ela toca o corpo,

mas não pertence a ele.

Ela o anima,

mas não se aprisiona nele.

E desde que vi isso,

algo em mim desaprendeu o medo.

Já não caminho

como quem carrega uma cela,

mas como quem veste, por um tempo,

uma bela roupa de passagem.

Agora sei:

sou maior que meu nome,

mais vasto que meu retrato,

mais antigo que minha história.

E quando respiro,

não é apenas o peito que se move —

é o invisível lembrando

que jamais nasceu para ser pequeno

  • Autor: Gilberto Lima (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de abril de 2026 14:34
  • Comentário do autor sobre o poema: Em “Eu Não Cabia em Mim”, procurei traduzir em palavras uma virada interior muito profunda: a passagem da identificação com o corpo para o reconhecimento da consciência como realidade mais ampla. Durante muito tempo, eu mesmo percebi que grande parte da experiência humana nasce dessa impressão de confinamento — como se fôssemos apenas matéria, biografia, limite e forma. A poesia nasce exatamente da ruptura dessa crença. Ela é, em essência, um deslocamento de perspectiva: deixo de me ver como alguém preso dentro de um corpo e passo a perceber que o corpo, com toda a sua beleza e fragilidade, é apenas uma expressão dentro de algo maior. Essa não é uma negação do corpo. Pelo contrário. É uma tentativa de recolocá-lo em seu lugar sagrado: não como prisão, mas como instrumento, passagem, linguagem temporária da presença. O poema também procura mostrar que muitas das nossas “grades” não são físicas, mas mentais — construídas por hábito, medo e costume. Quando essa compreensão se dissolve, surge uma espécie de liberdade silenciosa. Não uma liberdade de fugir do mundo, mas de habitá-lo com mais lucidez, leveza e profundidade. No fundo, “Eu Não Cabia em Mim” é uma meditação poética sobre identidade, presença e expansão. É o instante em que o “eu” deixa de ser apenas contorno e começa a reconhecer-se como vastidão.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 2
Comentários +

Comentários1

  • Francisco Queiroz

    É um não pertencer, um sentimento que não cabe em fronteiras, em bandeiras, excelente reflexão. Obrigado Poeta!

    • Gilberto Lima

      Exatamente. É uma sensação que transcende limites, fronteiras e rótulos. Fico muito feliz que a reflexão tenha tocado você. Eu que agradeço pela sensibilidade da leitura.



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