Durante muito tempo
pensei que eu morava atrás dos meus olhos,
preso na carne,
encerrado no limite dos ossos,
como alguém condenado
a assistir a vida por uma pequena janela.
Acreditei que eu era este corpo:
suas fadigas,
suas horas,
seus medos,
suas cicatrizes escondidas
sob a roupa e sob o nome.
Achei que existir
era caber dentro da pele,
era aceitar o contorno,
o peso,
a idade,
o espelho.
Mas um dia
algo em mim silenciou tão profundamente
que ouvi o que nunca fazia barulho.
E compreendi.
Eu não estava dentro do corpo.
Nunca estive.
O corpo era apenas margem.
Eu, rio.
O corpo era instrumento.
Eu, música.
O corpo era forma passageira,
e eu, a presença
que o atravessa sem se reduzir a ele.
Então vi:
não sou esta matéria que me veste,
nem o rosto que o tempo redesenha,
nem a voz que o mundo reconhece.
Sou aquilo que percebe.
Aquilo que testemunha.
Aquilo que permanece
mesmo quando tudo muda.
Sou consciência.
Não uma chama acesa
dentro de um vaso frágil,
mas o próprio espaço
onde a chama, o vaso e a noite aparecem.
Eu pensava ser um prisioneiro.
Hoje sei:
as grades eram apenas crenças
erguidas pelo costume.
Eu não estava trancado no corpo.
Era o corpo
que surgia em mim.
Porque a consciência
não cabe em lugar algum.
Não se fecha em carne,
não se limita em fronteiras,
não se curva ao mapa dos órgãos.
Ela toca o corpo,
mas não pertence a ele.
Ela o anima,
mas não se aprisiona nele.
E desde que vi isso,
algo em mim desaprendeu o medo.
Já não caminho
como quem carrega uma cela,
mas como quem veste, por um tempo,
uma bela roupa de passagem.
Agora sei:
sou maior que meu nome,
mais vasto que meu retrato,
mais antigo que minha história.
E quando respiro,
não é apenas o peito que se move —
é o invisível lembrando
que jamais nasceu para ser pequeno