###"Memória em Cinza — Os Dias que Não Calaram"
Claudio Gia, Macau RN 31/03/2026
Na curva do tempo, um dia se fez espinho:
31 de março, a noite armada,
o rumor das botas rompendo o destino,
a democracia suspensa, calcada.
Dos porões da história, um grito ainda ecoa —
censura, tortura, o arbítrio em seu trono.
O Brasil aprendeu, mas a memória à toa
tenta emoldurar o golpe como trono.
E há quem chame revolução o que foi ruptura,
e há quem venere o açoite como lei.
Nós, que colhemos os frutos da noite escura,
sabemos: só a verdade nos refez.
Mas não foi só no centro que a treva desceu:
em Macau, no salitre, o medo também ardeu.
Floriano Bezerra, voz de um povo operário,
deputado do chão, do sal, do salário,
viu o regime cerrar-lhe a palavra,
e Fernando de Noronha a liberdade lhe esmaga.
Preso por lutar, calado à força,
seu nome virou ferida que não se amordaça.
E Damião, de boca de ferro,
não era metal — era chão, era berro,
era a língua de quem não aceita o silêncio,
era a unha encravada no chão do opressório.
Puseram os trabalhadores nas ruas de Macau —
não por ordem, mas por fome, por dor, por espanto,
pedindo "liberdade" num só canto,
num grosso coro que vinha do sal,
do peixe, da lama, do cais, do punhal.
Resistiram.
E resistir, naquele tempo,
era ter contra si o decreto e o vento,
era ter contra si a lei feita açoite,
era amanhecer sem saber se era noite.
Neste dia, também, a saúde é lembrada:
nutrir o corpo, mas nutrir a história,
porque um povo sem memória é folha arrancada,
e a liberdade é a única vitória.
Que nunca mais o silêncio seja ordem,
nem a força se vista de razão.
Que o futuro se erga sobre a firme corda
da justiça, da vida, da união.
Que Macau, que o Brasil, que cada esquina
seja altar da memória que nos ensina:
que o golpe se chamou golpe,
que o torturador se chamou vil,
e que a liberdade não se negocia —
conquista-se, canta-se, vive-se,
enfim.
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Autor:
Claudio Gia (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 31 de março de 2026 12:04
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3

Offline)
Comentários1
Época de ditadura e censura ninguém quer atrasa o país, Vamos ser compatriotas, sorrir sim mas nem tanto, chorar sim mais não durante 26 anos. Uma flor que morre aqui nasce em outro jardim, vamos ser honestos honrados, ser brasileiros. Boa tarde poeta. Lindo seu poema.
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