Cama
Quanto mais me aquieto na cama menos o tempo parece passar, como se meu juízo final nunca fosse chegar.
Tão eterna essa tristeza êxtazional entre corpo e espírito, nem os mortos queridos, nem esse vazio solar que parece tão fora de lugar.
Quanto mais adormecida fico nessa cama, mais fluido o tempo flui, e cada partícula sua flutua no ar etéreo até se pegar à superfície física que empata a doce liberdade de não existir.
Tão voraz a confluência do corpo com sua consciência que nada nessa tarde quente faz tão cúmplice ardor.
Quanto mais muda fico no aconchego da cama, menos tempo é dinheiro, mais reflexo é atirado para o ramcor sem sentido do mundo onde tudo é usina de silêncio.
Choro então, luas negras de tristeza amarga, sobre a ternura de rosas abatidas por uma flecha perdida em seu percurso, se jogo meus olhos mil vezes pela janela, é sem nenhum ímpeto a esses rojões de sucesso multicoloridos, pouco importa meu nome, conta mais minha alucinação.
Então, me levanto da cama.
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Autor:
Lhidria, a rosa rubra. (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 31 de março de 2026 09:40
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 26
- Usuários favoritos deste poema: Apegaua, Sinvaldo de Souza Gino
- Em coleções: Melancólia e cafeína..

Offline)
Comentários3
Adorei o escrito, pelo jeito sapiente em que se findou, até pareceu que entre linhas o texto dizia.
Que era para ser lido com moderação e não comendo as palavras, como que se olhos esfomeados, desregrados, em busca de solução.
Bravos, por explorar esse lado intrigante da arte.
Seja bem vinda, pois a casa torna.
Apegaua
Meus profundos e honestos agradecimentos!
Que o bom nome seja ouvido e o traga da mesma maneira, uma grande satisfação e honra!
Olá poetisa! Boa noite! O seu texto é uma imersão profunda no que eu chamaria de melancolia lúcida. Você explora a densidade do repouso e o peso da consciência quando o corpo para. Você descreve perfeitamente o paradoxo da inércia. Quanto menos o corpo se move (me aquieto na cama), mais a percepção do tempo se dilata, tornando a existência uma eternidade que beira o insuportável. Essa expressão é poderosa. Ela traz a ideia de uma luz que, em vez de aquecer ou iluminar, apenas o expõe fora de lugar. É a melancolia que acontece em pleno dia, sob o sol, o que a torna mais crua. Ao dizer que menos tempo é dinheiro, mais reflexo é atirado para o rancor, você rompe com a lógica do mundo prático. A cama vira um santuário de resistência onde a produtividade morre e a alucinação (a subjetividade pura) assume o controle. Há um flerte com o niilismo, mas um niilismo poético. O corpo físico é visto como um empate, uma barreira que impede o espírito de se dissolver no etéreo. O desfecho é seco e necessário. Depois de mergulhar em luas negras e rosas abatidas, o movimento de levantar sugere uma quebra do transe, um retorno inevitável à superfície, mesmo que sem o entusiasmo dos rojões de sucesso. É um texto que dialoga com o existencialismo, onde o nome e o sucesso perdem o valor diante da imensidão do que se sente no silêncio. Laura, meus parabéns pelo poema! Meu abraço fraterno.
Credo! Profundo demais esse seu poema! Parabéns!!!
Muito obrigada!! Obrigada pelo carinho de ler!
Um cheiro,
Lhidria.
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