Cama

Lauraa

Cama

 

Quanto mais me aquieto na cama menos o tempo parece passar, como se meu juízo final nunca fosse chegar.

Tão eterna essa tristeza êxtazional entre corpo e espírito, nem os mortos queridos, nem esse vazio solar que parece tão fora de lugar.

Quanto mais adormecida fico nessa cama, mais fluido o tempo flui, e cada partícula sua flutua no ar etéreo até se pegar à superfície física que empata a doce liberdade de não existir.

Tão voraz a confluência do corpo com sua consciência que nada nessa tarde quente faz tão cúmplice ardor.

Quanto mais muda fico no aconchego da cama, menos tempo é dinheiro, mais reflexo é atirado para o ramcor sem sentido do mundo onde tudo é usina de silêncio.

Choro então, luas negras de tristeza amarga, sobre a ternura de rosas abatidas por uma flecha perdida em seu percurso, se jogo meus olhos mil vezes pela janela, é sem nenhum ímpeto a esses rojões de sucesso multicoloridos, pouco importa meu nome, conta mais minha alucinação.

Então, me levanto da cama.

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Comentários3

  • Apegaua

    Adorei o escrito, pelo jeito sapiente em que se findou, até pareceu que entre linhas o texto dizia.
    Que era para ser lido com moderação e não comendo as palavras, como que se olhos esfomeados, desregrados, em busca de solução.
    Bravos, por explorar esse lado intrigante da arte.
    Seja bem vinda, pois a casa torna.
    Apegaua

    • Lauraa

      Meus profundos e honestos agradecimentos!
      Que o bom nome seja ouvido e o traga da mesma maneira, uma grande satisfação e honra!

    • Vilma Oliveira

      Olá poetisa! Boa noite! O seu texto é uma imersão profunda no que eu chamaria de melancolia lúcida. Você explora a densidade do repouso e o peso da consciência quando o corpo para. Você descreve perfeitamente o paradoxo da inércia. Quanto menos o corpo se move (me aquieto na cama), mais a percepção do tempo se dilata, tornando a existência uma eternidade que beira o insuportável. Essa expressão é poderosa. Ela traz a ideia de uma luz que, em vez de aquecer ou iluminar, apenas o expõe fora de lugar. É a melancolia que acontece em pleno dia, sob o sol, o que a torna mais crua. Ao dizer que menos tempo é dinheiro, mais reflexo é atirado para o rancor, você rompe com a lógica do mundo prático. A cama vira um santuário de resistência onde a produtividade morre e a alucinação (a subjetividade pura) assume o controle. Há um flerte com o niilismo, mas um niilismo poético. O corpo físico é visto como um empate, uma barreira que impede o espírito de se dissolver no etéreo. O desfecho é seco e necessário. Depois de mergulhar em luas negras e rosas abatidas, o movimento de levantar sugere uma quebra do transe, um retorno inevitável à superfície, mesmo que sem o entusiasmo dos rojões de sucesso. É um texto que dialoga com o existencialismo, onde o nome e o sucesso perdem o valor diante da imensidão do que se sente no silêncio. Laura, meus parabéns pelo poema! Meu abraço fraterno.

    • Sinvaldo de Souza Gino

      Credo! Profundo demais esse seu poema! Parabéns!!!

      • Lauraa

        Muito obrigada!! Obrigada pelo carinho de ler!

        Um cheiro,
        Lhidria.



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