Dor de um certo privilégio

Anna Gonçalves

Com os pés no asfalto liso de uma escolha apressada,

ainda pulsa o paralelepípedo, a base que precisou ser estruturada.

Dizem que somos livres, o "ser para si" em construção,

mas que liberdade é essa, entre o privilégio e o chão?

 


Olho o jornal do mundo onde as explosões não cessa,

guerras e mortes de nichos distantes, dor que não me atravessa e não machuca.

                                       [Fisicamente]

Sou impotente na macro esfera, um grão na corrente,

mas sou carrasca de mim por me sentir... ausente.

 


Minha mente em pânico encontra a paz do sofá,

onde a culpa se senta e insiste em ficar.

É o privilégio que queima, a sorte que me dói,

enquanto o silêncio de quem sofre, meu peito corrói.

 


Como Sarte diria que a fuga é uma má-fé latente,

mas como escolher o mundo, sendo apenas um vivente?

Escolho, então, não ser consumido pela própria lama,

pois a inércia do luto não apaga a chama.

 


E nesse asfalto novo e a pedra antiga,

escolho a consciência, ainda que ela me persiga.

Sou livre para sentir o peso dessa guerra inteira,

e mesmo caindo em merda, escolher a luz da fronteira

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de março de 2026 20:56
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


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