Mãos que ficam

Oswaldo Jesus Motta

Só ouço vozes

de branco, passam

— já era

— não tem mais jeito

a luz não chega inteira

fica pela metade

penumbra

vozes conhecidas

presas na garganta

alguém segura o choro

como se segurasse o tempo

outros falam em números

cores

medidas

que aprenderam

mas tem um intervalo

entre o que dizem

e o que não sabem

neste momento

alguma coisa insiste

não me movo

nem um dedo

os olhos abertos

também falham

leem protocolo

não veem o abismo

e mesmo assim

entre mãos que desistem

e as que ficam

passa alguma coisa

mínima

teimosa

quase nada

mas passa

  • Autor: Oswaldo Jesus Motta (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de março de 2026 14:42
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 5
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Olá poeta! Boa noite! Os de branco: Falam em protocolos, números, cores e medidas. Representam a tentativa humana de controlar o caos através do conhecimento técnico (o que aprenderam). As vozes conhecidas: São as que trazem o peso emocional, o choro segurado e as palavras presas na garganta. A imagem da luz que não chega inteira e da penumbra traduz perfeitamente o estado de quem está entre dois mundos ou perdendo a consciência. O eu lírico está imóvel (nem um dedo), mas sua percepção é aguçada: ele nota o intervalo entre o que dizem e o que não sabem. Há uma crítica sutil à frieza do diagnóstico. Enquanto os olhos treinados leem protocolo, eles são incapazes de enxergar o abismo — a experiência subjetiva e aterradora de quem está naquela situação. O final é belíssimo e traz um sopro de esperança ou de persistência metafísica. Mesmo quando as mãos desistem (o fim dos cuidados ou da esperança médica), algo mínimo e teimoso ainda atravessa. É a vida que insiste em existir para além das explicações científicas. Meu abraço poético.

    • Oswaldo Jesus Motta

      Boa tarde! Que honra! Gratidão, poeta! Uma tarde de luz e paz. Ótimo final de semana! Abraços poéticos!



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