Ponto morto

Anna Gonçalves

O ônibus das 18h20 tem um balanço  

que imita o ritmo de um diálogo.  

Entra um silêncio, sai um silêncio,  

cada parada é uma frase que não foi dita.

 

Eu sento ao lado do lugar vago  

e finjo que está ali,  

ensaiando a pergunta que nunca achei o tom,

                       [ mas que diabos que aconteceu aqui e ali? ]

 

E de certa forma não é ausência.  

Ausência é vazia.  

 É um móvel no meio da sala  

que eu desvio todo dia  

e todo dia esbarro e bato a ponta do mindinho...

 

Queria conversas, no plural, 

como quem quer a planta inteira,  

não só o fruto.  

Mas chegou ao ponto final 

                               [E o ônibus para em um cruzamento ]

 

O fechamento não veio.  

Talvez ele nem exista.  

Talvez fechar seja isso, 

aprender a habitar o que não responde.

 

E se nunca chegar,  

o que faço com essa escuta que insiste?  

Guardo na garganta?  

Transformo em escrita?  

Deixo ela escutar outra pessoa,  

quem sabe?

 

Merecer? Deveria.  

Mas o que deve e o que dá  

raramente se encontram no mesmo ponto.  

Então eu sigo, 

junto com o ônibus. 

Porque a estrada não pergunta 

se eu quero companhia.

E não tem resposta certa, só a que dá e trás paz.

Sem questionamentos e teorias...

 

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 22 de março de 2026 23:39
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 6


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