O veredito do espelho e o vapor

Anna Gonçalves

Ligo o registro e deixo a água bater sobre meu corpo,

até encontrar finalmente o meu rosto, 

e água morna é um veredito curto.

 

Neste momento, a água já não canta.

Ela bate, uma insistência bruta,

desmancha o acumulado da semana;

                       [suor, prazos, silêncio]

que escorre, levando o que não me pedi.

 

Sob o jato, o corpo começa a lembrar

que não é só entrega.

Há o rito depois do alívio: o rosto que exige ser esfregado até virar só pele,

os pelos das pernas que insistem e precisa ceder,

o cabelo que pede tempo,

as unhas, a espera, o exame marcado

na agenda que não me perguntou se eu queria

aquele formato de dias.

 

E então elas vêm, as frases sem dono: ter que sorrir com menos dente,

ter que caber num molde que me aperta,

ter que ser o colo, a casa, a falta de espanto,

ter que herdar um útero cheio de deveres e afazeres. 

 

O peso escorre.

Não pelo ralo,

mas por um deslocamento interno.

Enquanto o vapor embaça o espelho,

eu vou desfazendo o que colaram em mim

como se fosse minha própria estrutura.

 

Desligo o registro.

Enxugo o rosto.

Não passo nada que não queira.

A lâmina fica onde está.

A unha, por enquanto, é só unha.

 

Meu corpo me pertence antes de qualquer tarefa.

Ser mulher não é a lista do que se faz,

mas o instante em que a lista se rasga

por dentro.

 

Estou nua de obrigações.

E esta nudez não precisa de roupa,

nem de olhar que me defina.

Sou a água que escolheu seu próprio caminho

depois de cair.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de março de 2026 22:33
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 3


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