Ligo o registro e deixo a água bater sobre meu corpo,
até encontrar finalmente o meu rosto,
e água morna é um veredito curto.
Neste momento, a água já não canta.
Ela bate, uma insistência bruta,
desmancha o acumulado da semana;
[suor, prazos, silêncio]
que escorre, levando o que não me pedi.
Sob o jato, o corpo começa a lembrar
que não é só entrega.
Há o rito depois do alívio: o rosto que exige ser esfregado até virar só pele,
os pelos das pernas que insistem e precisa ceder,
o cabelo que pede tempo,
as unhas, a espera, o exame marcado
na agenda que não me perguntou se eu queria
aquele formato de dias.
E então elas vêm, as frases sem dono: ter que sorrir com menos dente,
ter que caber num molde que me aperta,
ter que ser o colo, a casa, a falta de espanto,
ter que herdar um útero cheio de deveres e afazeres.
O peso escorre.
Não pelo ralo,
mas por um deslocamento interno.
Enquanto o vapor embaça o espelho,
eu vou desfazendo o que colaram em mim
como se fosse minha própria estrutura.
Desligo o registro.
Enxugo o rosto.
Não passo nada que não queira.
A lâmina fica onde está.
A unha, por enquanto, é só unha.
Meu corpo me pertence antes de qualquer tarefa.
Ser mulher não é a lista do que se faz,
mas o instante em que a lista se rasga
por dentro.
Estou nua de obrigações.
E esta nudez não precisa de roupa,
nem de olhar que me defina.
Sou a água que escolheu seu próprio caminho
depois de cair.