Eu te desenho —
mas minha mão não é estável.
Às vezes acerta o contorno do teu rosto,
às vezes atravessa
como se teu nome fosse feito de água.
As palavras vêm com força,
quase ferem o papel,
mas, no meio delas,
há sempre um gesto mínimo
que tenta cuidar.
Te invento assim:
entre o excesso
e o quase.
Te faço rio —
mas não aquele que corre manso:
há correnteza,
há fundo que puxa,
há o risco de não voltar.
E ainda assim,
em algum ponto da margem,
teu corpo encosta no meu
com uma calma inexplicável —
como se soubesse
que eu fico.
Nosso amor tem dias de ruptura:
portas batem sem vento,
o silêncio pesa nos objetos,
e tudo em nós parece à beira
de ceder.
Mas então —
quase nada acontece.
Um detalhe mínimo:
teu dedo encostando no meu pulso,
teu olhar desviando devagar,
e o mundo, que estava prestes a quebrar,
se reorganiza sem ruído.
É assim que seguimos:
entre o que ameaça
e o que sustenta.
Teu olhar não me salva —
ele me expõe,
abre o que eu escondia até de mim.
Mas depois,
sem dizer nada,
permanece.
E isso basta.
Nada aqui é seguro.
O tempo falha,
o chão muda de lugar,
há dias em que amar você
é caminhar sobre algo
que ainda está sendo feito.
E, mesmo assim,
há uma delicadeza absurda
em como não desistimos:
no jeito que você espera,
no modo como eu volto,
naquilo que, mesmo ferido,
ainda escolhe ficar.
Se um dia nos perdermos,
não será por falta de amor —
mas por termos sentido demais
sem saber onde guardar.
E ainda assim,
em algum lugar entre o que doeu
e o que quase foi paz,
vai restar um gesto:
leve,
quase invisível,
mas inteiro —
como tua mão na minha
naquele instante breve
em que tudo parou de doer
sem deixar
de ser profundo.
-
Autor:
Sezar Kosta (
Offline) - Publicado: 20 de março de 2026 17:19
- Comentário do autor sobre o poema: Amar você é viver entre intensidade e delicadeza, como quem tenta segurar algo que ao mesmo tempo escapa e permanece. Há momentos de conflito, silêncio e quase ruptura, mas pequenos gestos — simples e discretos — conseguem reorganizar tudo sem alarde. Esse amor não é estável nem seguro, mas é real justamente por revelar fragilidades e ainda assim escolher ficar. No meio das incertezas, o que sustenta não é a perfeição, mas a decisão silenciosa de continuar, mesmo quando tudo parece por um fio.
- Categoria: Amor
- Visualizações: 5
- Usuários favoritos deste poema: Sezar Kosta
- Em coleções: Meus Poemas de Amor.

Offline)
Comentários1
Boa noite caro poeta! A imagem do caminhar sobre algo que ainda está sendo feito, define o relacionamento não como um porto seguro estático, mas como um processo constante de tentativa e erro. O texto se equilibra entre o excesso (sentir demais, correntezas) e o mínimo (um toque no pulso, um gesto invisível). Sugere que o que sustenta uma relação não são os grandes eventos, mas a capacidade de se reorganizar nos pequenos detalhes. O olhar do outro não é apenas conforto, ele expõe e abre o que eu escondia. O amor aqui aparece como um espelho que obriga o eu lírico a encarar suas próprias fragilidades. O poema valoriza o ficar e o voltar em vez da perfeição. A delicadeza absurda reside na escolha consciente de permanecer, mesmo quando o chão muda de lugar ou quando há o risco de se perder. Em resumo, é um poema sobre a coragem de ser imperfeito junto de alguém, onde o sentir demais é ao mesmo tempo o perigo e a beleza da conexão. Meu abraço fraterno.
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.