ONDE O AMOR ARDE E ACALMA

Sezar Kosta

Eu te desenho —

mas minha mão não é estável.

 

Às vezes acerta o contorno do teu rosto,

às vezes atravessa

como se teu nome fosse feito de água.

 

As palavras vêm com força,

quase ferem o papel,

mas, no meio delas,

há sempre um gesto mínimo

que tenta cuidar.

 

Te invento assim:

entre o excesso

e o quase.

 

Te faço rio —

mas não aquele que corre manso:

há correnteza,

há fundo que puxa,

há o risco de não voltar.

 

E ainda assim,

em algum ponto da margem,

teu corpo encosta no meu

com uma calma inexplicável —

como se soubesse

que eu fico.

 

Nosso amor tem dias de ruptura:

 

portas batem sem vento,

o silêncio pesa nos objetos,

e tudo em nós parece à beira

de ceder.

 

Mas então —

quase nada acontece.

 

Um detalhe mínimo:

teu dedo encostando no meu pulso,

teu olhar desviando devagar,

e o mundo, que estava prestes a quebrar,

se reorganiza sem ruído.

 

É assim que seguimos:

 

entre o que ameaça

e o que sustenta.

 

Teu olhar não me salva —

ele me expõe,

abre o que eu escondia até de mim.

 

Mas depois,

sem dizer nada,

permanece.

 

E isso basta.

 

Nada aqui é seguro.

 

O tempo falha,

o chão muda de lugar,

há dias em que amar você

é caminhar sobre algo

que ainda está sendo feito.

 

E, mesmo assim,

há uma delicadeza absurda

em como não desistimos:

 

no jeito que você espera,

no modo como eu volto,

naquilo que, mesmo ferido,

ainda escolhe ficar.

 

Se um dia nos perdermos,

não será por falta de amor —

 

mas por termos sentido demais

sem saber onde guardar.

 

E ainda assim,

em algum lugar entre o que doeu

e o que quase foi paz,

 

vai restar um gesto:

 

leve,

quase invisível,

mas inteiro —

 

como tua mão na minha

naquele instante breve

em que tudo parou de doer

sem deixar

de ser profundo.

 

  • Autor: Sezar Kosta (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de março de 2026 17:19
  • Comentário do autor sobre o poema: Amar você é viver entre intensidade e delicadeza, como quem tenta segurar algo que ao mesmo tempo escapa e permanece. Há momentos de conflito, silêncio e quase ruptura, mas pequenos gestos — simples e discretos — conseguem reorganizar tudo sem alarde. Esse amor não é estável nem seguro, mas é real justamente por revelar fragilidades e ainda assim escolher ficar. No meio das incertezas, o que sustenta não é a perfeição, mas a decisão silenciosa de continuar, mesmo quando tudo parece por um fio.
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 5
  • Usuários favoritos deste poema: Sezar Kosta
  • Em coleções: Meus Poemas de Amor.
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Boa noite caro poeta! A imagem do caminhar sobre algo que ainda está sendo feito, define o relacionamento não como um porto seguro estático, mas como um processo constante de tentativa e erro. O texto se equilibra entre o excesso (sentir demais, correntezas) e o mínimo (um toque no pulso, um gesto invisível). Sugere que o que sustenta uma relação não são os grandes eventos, mas a capacidade de se reorganizar nos pequenos detalhes. O olhar do outro não é apenas conforto, ele expõe e abre o que eu escondia. O amor aqui aparece como um espelho que obriga o eu lírico a encarar suas próprias fragilidades. O poema valoriza o ficar e o voltar em vez da perfeição. A delicadeza absurda reside na escolha consciente de permanecer, mesmo quando o chão muda de lugar ou quando há o risco de se perder. Em resumo, é um poema sobre a coragem de ser imperfeito junto de alguém, onde o sentir demais é ao mesmo tempo o perigo e a beleza da conexão. Meu abraço fraterno.



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