Eu te desenho —
mas minha mão não é estável.
Às vezes acerta o contorno do teu rosto,
às vezes atravessa
como se teu nome fosse feito de água.
As palavras vêm com força,
quase ferem o papel,
mas, no meio delas,
há sempre um gesto mínimo
que tenta cuidar.
Te invento assim:
entre o excesso
e o quase.
Te faço rio —
mas não aquele que corre manso:
há correnteza,
há fundo que puxa,
há o risco de não voltar.
E ainda assim,
em algum ponto da margem,
teu corpo encosta no meu
com uma calma inexplicável —
como se soubesse
que eu fico.
Nosso amor tem dias de ruptura:
portas batem sem vento,
o silêncio pesa nos objetos,
e tudo em nós parece à beira
de ceder.
Mas então —
quase nada acontece.
Um detalhe mínimo:
teu dedo encostando no meu pulso,
teu olhar desviando devagar,
e o mundo, que estava prestes a quebrar,
se reorganiza sem ruído.
É assim que seguimos:
entre o que ameaça
e o que sustenta.
Teu olhar não me salva —
ele me expõe,
abre o que eu escondia até de mim.
Mas depois,
sem dizer nada,
permanece.
E isso basta.
Nada aqui é seguro.
O tempo falha,
o chão muda de lugar,
há dias em que amar você
é caminhar sobre algo
que ainda está sendo feito.
E, mesmo assim,
há uma delicadeza absurda
em como não desistimos:
no jeito que você espera,
no modo como eu volto,
naquilo que, mesmo ferido,
ainda escolhe ficar.
Se um dia nos perdermos,
não será por falta de amor —
mas por termos sentido demais
sem saber onde guardar.
E ainda assim,
em algum lugar entre o que doeu
e o que quase foi paz,
vai restar um gesto:
leve,
quase invisível,
mas inteiro —
como tua mão na minha
naquele instante breve
em que tudo parou de doer
sem deixar
de ser profundo.