Invisíveis

Oswaldo Jesus Motta

Caminhava.

Um chamado — baixo, insistente:

— ei… ei…

Parei.

— Moço… você me vê?

Vi.

Mas hesitei na resposta

como quem mede o peso de existir.

— Porque passam…

e não olham.

Digo “bom dia” —

o ar responde.

Fez uma pausa,

dessas que não cabem no tempo:

— Será que estou invisível…

ou já não vivo?

Engoli seco.

A cidade seguia —

indiferente, intacta.

— Não — eu disse —

é o mundo que desaprendeu

a enxergar.

Estamos todos

à procura de algo:

um rosto que devolva o olhar,

uma palavra que permaneça,

uma mão

que não atravesse a nossa.

Ele sorriu —

quase luz, quase ausência.

— Vá com Deus.

E partiu devagar,

como quem já sabia

o caminho de desaparecer.

Fiquei.

E desde então,

quando passo por alguém,

carrego o medo súbito

de também

não ser visto.

 

  • Autor: Oswaldo Jesus Motta (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de março de 2026 16:02
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! A pergunta: Será que estou invisível... ou já não vivo? O poeta questiona sua própria vida porque a confirmação da existência humana depende do olhar do outro. A cidade é descrita como indiferente, intacta. Enquanto os indivíduos sofrem crises existenciais, o fluxo urbano permanece mecânico e frio, acentuo a solidão. O narrador conclui que o problema não está em quem desaparece, mas no mundo que desaprendeu a enxergar. Há uma crítica à pressa e ao egoísmo contemporâneo que nos tornam cegos para o próximo. O final inverte a lógica: o medo não é mais de quem foi ignorado, mas do narrador (e do leitor). Ao perceber quão fácil é ser ignorado, ele passa a temer a própria invisibilidade, revelando que a conexão humana é o que nos mantém vivos na sociedade. É um texto que transforma um encontro cotidiano em uma lição sobre empatia e a fragilidade dos laços sociais. Meu abraço poético.

    • Oswaldo Jesus Motta

      Gratidão, nobre poeta! Muito obrigado pela leitura e pelas considerações. Abraços poéticos e ótimo dia!



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