Caminhava.
Um chamado —
baixo, insistente:
— ei... ei...
Parei:
— Moço... você me vê?
Vi.
Mas hesitei —
não sei bem por quê —
como quem mede
o peso de existir.
— Porque passam...
e não olham.
Digo \"bom dia\" —
o ar responde.
Fez uma pausa,
dessas que não cabem no tempo:
— Será que estou invisível...
ou já não vivo?
Engoli seco.
A cidade seguia —
indiferente,
como sempre.
— Não — eu disse —
é o mundo que desaprendeu
a enxergar.
Estamos todos
à procura de algo:
um rosto que devolva o olhar,
uma palavra que fique,
uma mão
que não atravesse a nossa.
Ele sorriu —
quase luz,
quase nada.
— Vá com Deus.
E partiu devagar,
como quem já sabia
— talvez —
o caminho de desaparecer.