DEFUNTO

eduardo cabette

         Fede, fede muito,

         um fedor que avassala as narinas,

         dando esta inefável impressão de

         podridão.

         Jaz amorfo, nojento, um monte de

         carniça.

         Restos mortais de um ex-ser humano,

         irreconhecível,

         inenarravelmente horrível,

         companheiro dos vermes, moscas, mosquitos

         e larvas asquerosas.

         Solitário, mutilado de sua existência,

         abandonado em vala lamacenta,

         Esquecido?

         Pelos amigos?

         Teve amigos?

         Pelas mulheres?

         As teve certamente,

         porém se o vissem hoje não desejariam

         suas juras de amor ou sua carne.

         Pelo patrão?

         Pelos empregados?

         Pela esposa e filhos?

         E os inimigos?

         Felizes é que devem estar,

         se é que existem.

         Será que era burro ou inteligente,

         bom ou mau,

         covarde ou corajoso,

         rico ou pobre,

         era branco,

         porém agora é apenas barrento e fedorento

         nesta vala imunda.

         Meio fúnebre, meio nauseabundo

         neste quadro de morte,

         vagando entre as definições

         cadáver e lixo.

         Não tem lembranças,

         em seu débil corpo

         onde antes alojava um cérebro

         passeiam minhocas dentre seus restos.

         E as infindas informações contidas

         em sua caixa pensante?

         Esvaíram-se?

         Onde estão?

         Passeando por estradas brumosas?

         Morando em ilhas perdidas

         de universos surrealistas?

         Espalhadas pelo subsolo

         após serem diluídas

         pelo primário sistema digestivo

         desses minúsculos lixeiros da terra?

         Apodrecendo em algum misterioso

         cemitério de idéias?

         Pairando sob o céu da cidade,

         ou no céu com a alma

         ou no inferno?

         Talvez ainda habitem reconditamente

         o ermo, álgido e semi decomposto

         coração do cadáver.

         Sua língua enrolada, pode ter sido

         traidora, muda, ponderativa, faladora,

         condescendente e venenosa.

         De que lhe servem suas mãos

         nestes derradeiros momentos de existência material?

         Gélidas é que são.

         Fortes é que parecem, quentes é que talvez fossem.

         Tanta coisa devem ter feito estas mãos,

         acariciaram rostos, nádegas, cabelos,

         pêlos animalescos e os da própria barba

         que observa-se feita no rosto amorfo do cadáver.

         Ela parou de crescer assim que a vida parou de

         Fluir.

         Que mais fizeram estas mãos?

         Mataram?

         Não. Foram mortas.

         Manusearam ferramentas, canetas, papéis,

         metais, cimento, réguas, dinheiro,

         volantes ou instrumentos musicais?

         O resto do corpo mutilado pelo tempo, calor e vermes,

         é só um amontoado de morte

         difícil de se imaginar que um dia foi tijolo de vida

         e partícula atuante na reação em cadeia

         da sociedade humana.

         Era um pária?

         Talvez sim, talvez não, hoje o é,

         nem os legistas gostam de aproximar-se dele

         e quando o fazem é com máscaras protetoras.

         E de seus lábios frios

         quando não eram frios,

         certamente brotavam palavras em vários tons,

         de várias formas, por várias razões.

         Hoje, os lábios frios, embebidos em sangue coagulado

         não cantam, rezam, xingam, lamentam, gemem,

         beijam, ferem, quebram segredos,

         ou contam mentiras,

         apenas são frígidos.

         Seu olhar morto de olhos virados é branco

         nada diz ou diz tudo.

         Aparenta, pelos seus restos fedorentos,

         uns quarenta anos.

         Bem vividos?

         Vã argüição.

         Ao contrário da vida,

         a morte é peremptória.

         É bem verdade

         que as pessoas endeusam seus mortos

         e decerto com ele não será diferente.

         Agora, sua família já deve ter recebido

         a triste notícia

         e flutuam expressões entre prantos:

         — Era um bom homem!

         — Não merecia isto!

         Haverá muitas lágrimas, muitas velas,

         orações, pêsames, fingimentos,

         ironias, piadas no velório ( se houvesse, não

         haverá devido ao mau cheiro )

         e haverá também flores, terra

         e lápide com dizeres.

         Não terá porém, mais horas felizes

         nem infelizes, nem aniversário de quarenta e um,

         nem comida, nem roupas

         e muito menos romances,

         secretos ou não.

         O desespero, este ficou sepultado

         naqueles derradeiros momentos agonizantes,

         durante os quais a morte insinuava-se

         e mais,

         revelava-se sem sutilezas

         e rude, cumpria seu dever cruel

         frente àqueles olhos pávidos

         em seu último apelo à

         Vida.

         Depois disso inda persiste sua existência,

         agora imaterialmente?

         Onde andará?

         Em inóspitos incandescentes infernos?

         Em céus de anjos louros, algodão e paz?

         Em purgatórios, látegos de almas?

         Andará perdida sua consciência

         em trevas indispersáveis?

         Será que sua alma tem olhos?

         Estarão virados, brancos ou verdes?

         Terá objetivos? Os teve em vida?

         Certo é que não há mais

         compassos de relógio para ele,

         não há tempo e há tempo demais,

         há eternidade,

         todo efêmero virou carniça e fedor,

         agora vem o mais difícil:

         comtemplar a essência de si mesmo,

         ouvir o barulho da sinceridade

         e a música enfadonha, da verdade,

         sentir o sal arder nas chagas

         dos próprios erros,

         e sentir-se rubro de impurezas

         para tentar purificar-se.

         E da Terra levará sete palmos de

         terra.

         E na Terra deixará uma vaga lembrança,

         notícia de jornal,

         dentro em pouco abandonada

         em alguma gaveta subconsciente

         dos amigos, das mulheres, da esposa,

         dos filhos, dos inimigos, dos idiotas,

         dos hipócritas, dos moribundos,

         dos médicos, do governo e do poeta.

         Uma vaga lembrança,

         Um vago murmúrio,

         Um adeus.

(Obs. Poema inspirado em um atendimento de encontro de cadáver em caso de homicídio quando o autor era operacional da Polícia Civil). 

  • Autor: eduardo cabette (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de março de 2026 15:34
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
Comentários +

Comentários1

  • O rei

    Tremendamente mórbido... Deu-me enjôo. Tu viste um corpo morto ?

    • eduardo cabette

      Sim, veja a observação no final. A poesia está em tudo. Abraço!



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