Fede, fede muito,
um fedor que avassala as narinas,
dando esta inefável impressão de
podridão.
Jaz amorfo, nojento, um monte de
carniça.
Restos mortais de um ex-ser humano,
irreconhecível,
inenarravelmente horrível,
companheiro dos vermes, moscas, mosquitos
e larvas asquerosas.
Solitário, mutilado de sua existência,
abandonado em vala lamacenta,
Esquecido?
Pelos amigos?
Teve amigos?
Pelas mulheres?
As teve certamente,
porém se o vissem hoje não desejariam
suas juras de amor ou sua carne.
Pelo patrão?
Pelos empregados?
Pela esposa e filhos?
E os inimigos?
Felizes é que devem estar,
se é que existem.
Será que era burro ou inteligente,
bom ou mau,
covarde ou corajoso,
rico ou pobre,
era branco,
porém agora é apenas barrento e fedorento
nesta vala imunda.
Meio fúnebre, meio nauseabundo
neste quadro de morte,
vagando entre as definições
cadáver e lixo.
Não tem lembranças,
em seu débil corpo
onde antes alojava um cérebro
passeiam minhocas dentre seus restos.
E as infindas informações contidas
em sua caixa pensante?
Esvaíram-se?
Onde estão?
Passeando por estradas brumosas?
Morando em ilhas perdidas
de universos surrealistas?
Espalhadas pelo subsolo
após serem diluídas
pelo primário sistema digestivo
desses minúsculos lixeiros da terra?
Apodrecendo em algum misterioso
cemitério de idéias?
Pairando sob o céu da cidade,
ou no céu com a alma
ou no inferno?
Talvez ainda habitem reconditamente
o ermo, álgido e semi decomposto
coração do cadáver.
Sua língua enrolada, pode ter sido
traidora, muda, ponderativa, faladora,
condescendente e venenosa.
De que lhe servem suas mãos
nestes derradeiros momentos de existência material?
Gélidas é que são.
Fortes é que parecem, quentes é que talvez fossem.
Tanta coisa devem ter feito estas mãos,
acariciaram rostos, nádegas, cabelos,
pêlos animalescos e os da própria barba
que observa-se feita no rosto amorfo do cadáver.
Ela parou de crescer assim que a vida parou de
Fluir.
Que mais fizeram estas mãos?
Mataram?
Não. Foram mortas.
Manusearam ferramentas, canetas, papéis,
metais, cimento, réguas, dinheiro,
volantes ou instrumentos musicais?
O resto do corpo mutilado pelo tempo, calor e vermes,
é só um amontoado de morte
difícil de se imaginar que um dia foi tijolo de vida
e partícula atuante na reação em cadeia
da sociedade humana.
Era um pária?
Talvez sim, talvez não, hoje o é,
nem os legistas gostam de aproximar-se dele
e quando o fazem é com máscaras protetoras.
E de seus lábios frios
quando não eram frios,
certamente brotavam palavras em vários tons,
de várias formas, por várias razões.
Hoje, os lábios frios, embebidos em sangue coagulado
não cantam, rezam, xingam, lamentam, gemem,
beijam, ferem, quebram segredos,
ou contam mentiras,
apenas são frígidos.
Seu olhar morto de olhos virados é branco
nada diz ou diz tudo.
Aparenta, pelos seus restos fedorentos,
uns quarenta anos.
Bem vividos?
Vã argüição.
Ao contrário da vida,
a morte é peremptória.
É bem verdade
que as pessoas endeusam seus mortos
e decerto com ele não será diferente.
Agora, sua família já deve ter recebido
a triste notícia
e flutuam expressões entre prantos:
— Era um bom homem!
— Não merecia isto!
Haverá muitas lágrimas, muitas velas,
orações, pêsames, fingimentos,
ironias, piadas no velório ( se houvesse, não
haverá devido ao mau cheiro )
e haverá também flores, terra
e lápide com dizeres.
Não terá porém, mais horas felizes
nem infelizes, nem aniversário de quarenta e um,
nem comida, nem roupas
e muito menos romances,
secretos ou não.
O desespero, este ficou sepultado
naqueles derradeiros momentos agonizantes,
durante os quais a morte insinuava-se
e mais,
revelava-se sem sutilezas
e rude, cumpria seu dever cruel
frente àqueles olhos pávidos
em seu último apelo à
Vida.
Depois disso inda persiste sua existência,
agora imaterialmente?
Onde andará?
Em inóspitos incandescentes infernos?
Em céus de anjos louros, algodão e paz?
Em purgatórios, látegos de almas?
Andará perdida sua consciência
em trevas indispersáveis?
Será que sua alma tem olhos?
Estarão virados, brancos ou verdes?
Terá objetivos? Os teve em vida?
Certo é que não há mais
compassos de relógio para ele,
não há tempo e há tempo demais,
há eternidade,
todo efêmero virou carniça e fedor,
agora vem o mais difícil:
comtemplar a essência de si mesmo,
ouvir o barulho da sinceridade
e a música enfadonha, da verdade,
sentir o sal arder nas chagas
dos próprios erros,
e sentir-se rubro de impurezas
para tentar purificar-se.
E da Terra levará sete palmos de
terra.
E na Terra deixará uma vaga lembrança,
notícia de jornal,
dentro em pouco abandonada
em alguma gaveta subconsciente
dos amigos, das mulheres, da esposa,
dos filhos, dos inimigos, dos idiotas,
dos hipócritas, dos moribundos,
dos médicos, do governo e do poeta.
Uma vaga lembrança,
Um vago murmúrio,
Um adeus.
(Obs. Poema inspirado em um atendimento de encontro de cadáver em caso de homicídio quando o autor era operacional da Polícia Civil).