QUANDO O PASSADO APRENDE A SER PAISAGEM

Sezar Kosta

No começo, a cura não chega como luz repentina.

Ela surge discreta, quase imperceptível,

como a primeira claridade que desliza

pela borda de uma janela ainda fechada.

Nada apaga o que aconteceu.

A memória permanece,

com suas marcas nítidas

gravadas na matéria silenciosa do tempo.

 

Há dias em que o passado se aproxima devagar,

sentando-se ao lado das pequenas rotinas:

no café que esfria enquanto os pensamentos vagam,

na rua atravessada sem pressa ao entardecer,

no eco distante de uma conversa antiga

que ainda ressoa no fundo da lembrança.

 

Nesses instantes percebemos

que a dor possui duas faces.

Uma nos alerta, preserva, ensina;

outra tenta dominar o território do presente,

erguendo trincheiras invisíveis

onde o medo vigia cada passo.

 

A alma, então, pede trégua.

Não como quem deseja apagar o campo da batalha,

mas como quem recolhe as armas

para que o silêncio volte a respirar.

 

É nesse silêncio que a cura trabalha.

Ela não se impõe — constrói.

Avança devagar,

como um artesão paciente

que restaura uma peça antiga

sem apagar as marcas de sua história.

 

Primeiro a mente aprende a ler o que aconteceu.

Ela organiza fragmentos,

distingue ferida de destino,

descobre que compreender

é abrir uma janela onde antes havia muro.

 

Depois o coração executa sua tarefa mais lenta:

ele acolhe aquilo que doeu

sem negar sua existência,

como um terreno que aceita a chuva forte

e ainda assim prepara o solo para o próximo cultivo.

 

Então o corpo responde.

Ele altera rotas, experimenta novos gestos,

habita espaços que antes pareciam interditados

e permite que o movimento

restitua à vida sua direção.

 

Assim a cura se completa:

não pelo desaparecimento da lembrança,

mas pela mudança de seu lugar.

 

E chega um dia —

claro, firme, silencioso —

em que o passado ainda está lá,

inteiro, visível, distante.

 

Não como carrasco.

Não como comando.

 

Apenas como paisagem

atrás de quem seguiu caminhando.

  • Autor: Sezar Kosta (Offline Offline)
  • Publicado: 12 de março de 2026 22:30
  • Comentário do autor sobre o poema: Com o tempo, entendemos que superar não significa apagar o que aconteceu, mas aprender a conviver com essa parte da nossa história. A mente começa a compreender os acontecimentos, o coração aprende a aceitar o que doeu e, pouco a pouco, a vida volta a seguir seu caminho. As lembranças continuam existindo, mas deixam de controlar nossas escolhas e emoções. O passado permanece, porém já não está à nossa frente bloqueando o caminho — ele fica atrás, como parte da estrada que percorremos.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 5
  • Usuários favoritos deste poema: Sezar Kosta, Luana Santahelena


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.