No começo, a cura não chega como luz repentina.
Ela surge discreta, quase imperceptível,
como a primeira claridade que desliza
pela borda de uma janela ainda fechada.
Nada apaga o que aconteceu.
A memória permanece,
com suas marcas nítidas
gravadas na matéria silenciosa do tempo.
Há dias em que o passado se aproxima devagar,
sentando-se ao lado das pequenas rotinas:
no café que esfria enquanto os pensamentos vagam,
na rua atravessada sem pressa ao entardecer,
no eco distante de uma conversa antiga
que ainda ressoa no fundo da lembrança.
Nesses instantes percebemos
que a dor possui duas faces.
Uma nos alerta, preserva, ensina;
outra tenta dominar o território do presente,
erguendo trincheiras invisíveis
onde o medo vigia cada passo.
A alma, então, pede trégua.
Não como quem deseja apagar o campo da batalha,
mas como quem recolhe as armas
para que o silêncio volte a respirar.
É nesse silêncio que a cura trabalha.
Ela não se impõe — constrói.
Avança devagar,
como um artesão paciente
que restaura uma peça antiga
sem apagar as marcas de sua história.
Primeiro a mente aprende a ler o que aconteceu.
Ela organiza fragmentos,
distingue ferida de destino,
descobre que compreender
é abrir uma janela onde antes havia muro.
Depois o coração executa sua tarefa mais lenta:
ele acolhe aquilo que doeu
sem negar sua existência,
como um terreno que aceita a chuva forte
e ainda assim prepara o solo para o próximo cultivo.
Então o corpo responde.
Ele altera rotas, experimenta novos gestos,
habita espaços que antes pareciam interditados
e permite que o movimento
restitua à vida sua direção.
Assim a cura se completa:
não pelo desaparecimento da lembrança,
mas pela mudança de seu lugar.
E chega um dia —
claro, firme, silencioso —
em que o passado ainda está lá,
inteiro, visível, distante.
Não como carrasco.
Não como comando.
Apenas como paisagem
atrás de quem seguiu caminhando.