Errei no cálculo da alma gêmea.
Confesso com certa elegância trágica —
como quem derruba café na camisa branca
e decide chamar aquilo de arte abstrata.
Acreditei, com devoção quase científica,
que os opostos se complementam.
Então fiz contas.
Muitas contas.
Contas demais para algo que pulsa.
Sendo eu um furacão de pressa,
procurei alguém lento —
um lago, um domingo,
uma pessoa que mastigasse o tempo.
E passei por ele
tão rápido
que nem o vi.
Talvez ele estivesse ali,
encostado na calmaria do próprio silêncio,
enquanto eu cruzava a vida
como um vento atrasado
para um compromisso com o destino.
Sendo eu um festival de piadas ruins,
busquei alguém sério —
uma estátua de sobriedade,
um ministro da compostura.
Contei minhas melhores tragédias cômicas
com entusiasmo heroico.
Ele não riu.
E eu fiquei ali,
ecoando minhas próprias piadas
no vácuo elegante
de um monólogo sem plateia.
Descobri então algo curioso
sobre o amor
(e sobre mim):
buscar o oposto perfeito
é a forma mais eficiente
de encontrar alguém
com quem você não tem
absolutamente nada
para conversar.
Porque enquanto eu era tempestade,
ele era previsão do tempo.
Enquanto eu era riso torto,
ele era silêncio bem penteado.
E silêncio demais,
descobri tarde,
não é mistério —
às vezes é só ausência de assunto.
Foi quando a vida,
essa professora que corrige provas
sem devolver o gabarito,
sussurrou no meu ouvido:
— menina,
o amor não é matemática.
Nunca foi.
Não existem fórmulas
para dois corações que decidem
bater no mesmo ritmo.
Amor é mais parecido
com dois rádios antigos
procurando frequência.
Às vezes chiado.
Às vezes ruído.
Até que — por milagre ou distração —
a música aparece.
E quando aparece
não importa
se somos vento ou lago,
piada ou silêncio.
Importa apenas
que alguém escute
e sorria
exatamente
na mesma estação.
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Autor:
Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 12 de março de 2026 21:07
- Comentário do autor sobre o poema: Errei no cálculo da alma gêmea ao acreditar piamente que "os opostos se complementam". Sendo eu um furacão de pressa, procurei alguém lento — e passei por ele tão rápido que nem o vi. Sendo eu um festival de piadas ruins, busquei alguém sério — e ele não riu, me deixando no vácuo de um monólogo sem fim. No fim das contas, descobri que buscar o oposto perfeito é a forma mais eficiente de encontrar alguém com quem você não tem absolutamente nada para conversar. O amor não é matemática, é sintonia.
- Categoria: Amor
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