Luana Santahelena

Aritmética do Coração (com Margem de Erro)

Errei no cálculo da alma gêmea.

Confesso com certa elegância trágica —

como quem derruba café na camisa branca

e decide chamar aquilo de arte abstrata.

 

Acreditei, com devoção quase científica,

que os opostos se complementam.

 

Então fiz contas.

Muitas contas.

Contas demais para algo que pulsa.

 

Sendo eu um furacão de pressa,

procurei alguém lento —

um lago, um domingo,

uma pessoa que mastigasse o tempo.

 

E passei por ele

tão rápido

que nem o vi.

 

Talvez ele estivesse ali,

encostado na calmaria do próprio silêncio,

enquanto eu cruzava a vida

como um vento atrasado

para um compromisso com o destino.

 

Sendo eu um festival de piadas ruins,

busquei alguém sério —

uma estátua de sobriedade,

um ministro da compostura.

 

Contei minhas melhores tragédias cômicas

com entusiasmo heroico.

 

Ele não riu.

 

E eu fiquei ali,

ecoando minhas próprias piadas

no vácuo elegante

de um monólogo sem plateia.

 

Descobri então algo curioso

sobre o amor

(e sobre mim):

 

buscar o oposto perfeito

é a forma mais eficiente

de encontrar alguém

com quem você não tem

absolutamente nada

para conversar.

 

Porque enquanto eu era tempestade,

ele era previsão do tempo.

 

Enquanto eu era riso torto,

ele era silêncio bem penteado.

 

E silêncio demais,

descobri tarde,

não é mistério —

às vezes é só ausência de assunto.

 

Foi quando a vida,

essa professora que corrige provas

sem devolver o gabarito,

sussurrou no meu ouvido:

 

— menina,

o amor não é matemática.

 

Nunca foi.

 

Não existem fórmulas

para dois corações que decidem

bater no mesmo ritmo.

 

Amor é mais parecido

com dois rádios antigos

procurando frequência.

 

Às vezes chiado.

Às vezes ruído.

Até que — por milagre ou distração —

a música aparece.

 

E quando aparece

não importa

se somos vento ou lago,

piada ou silêncio.

 

Importa apenas

que alguém escute

e sorria

exatamente

na mesma estação.