Ritual da Manhã na Mangueira
Toda manhã os pombos armam tocaia
no pé da mangueira — galho-observatório:
de cima espiam a masseira rasa,
onde a ração dos pets cai em grumos de esquecimento.
Ficam imóveis, peito inflado,
contando migalha por migalha,
esperando a casa virar costas,
o portão ranger, o menino sumir.
Aí desce o bando — asa mole, salto tímido, e a festa é seca: bicam farelo,
arrastam grão, quebram silêncio
como quem varre o chão com pressa.
Mas Magrela, cadela magra de costela-conta-gota,
surge no meio como susto antigo:
uma investida, pó e pena,
e o almoço vira luto pra um.
Os outros voam, voltam depois,
porque fome é mais forte que medo;
a mangueira continua verde,
a masseira, cheia de resto,
e Magrela lambe o beiço
como se ninhum pombo houvesse sido.
De manhã cedo, o ritual se arma:
pombos na sombra, ração no chão,
a cadela no sol,
e a vida se repete
entre migalha e dente.
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Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 12 de março de 2026 07:24
- Categoria: Ocasião especial
- Visualizações: 2

Offline)
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