Sinvaldo de Souza Gino

Ritual da Manhã na Mangueira

Ritual da Manhã na Mangueira

Toda manhã os pombos armam tocaia  
no pé da mangueira — galho-observatório:  
de cima espiam a masseira rasa,  
onde a ração dos pets cai em grumos de esquecimento.  

Ficam imóveis, peito inflado,  
contando migalha por migalha,  
esperando a casa virar costas,  
o portão ranger, o menino sumir.  

Aí desce o bando — asa mole, salto tímido, e a festa é seca: bicam farelo,  
arrastam grão, quebram silêncio  
como quem varre o chão com pressa.  

Mas Magrela, cadela magra de costela-conta-gota,
surge no meio como susto antigo:  
uma investida, pó e pena,  
e o almoço vira luto pra um.  

Os outros voam, voltam depois,  
porque fome é mais forte que medo;  
a mangueira continua verde,  
a masseira, cheia de resto,  
e Magrela lambe o beiço  
como se ninhum pombo houvesse sido.  

De manhã cedo, o ritual se arma:  
pombos na sombra, ração no chão,  
a cadela no sol,
e a vida se repete  
entre migalha e dente.