A vida parece
um grande kit de ferramentas
sem manual de instruções.
Abro a caixa pela manhã
como quem abre uma pergunta.
Dentro dela
há martelos silenciosos,
parafusos tímidos,
e uma chave de fenda
que insiste em olhar para mim
como se dissesse:
— hoje vamos tentar de novo?
Confesso
que nunca sei exatamente
qual ferramenta usar.
Um dia
uso paciência
para consertar um problema pequeno
como quem cola uma xícara lascada.
No outro
preciso de coragem
para desmontar um drama inteiro
parafuso por parafuso
como quem desmonta um relógio
esperando que o tempo
não fique ofendido.
Às vezes
aperto demais as coisas da vida.
Aperto decisões,
aperto expectativas,
aperto silêncios.
E pronto:
nasce um problema novinho
com cheiro de oficina.
Nessas horas
sento no chão da existência
e converso comigo mesma:
— Será que a vida também
está aprendendo a me usar?
Talvez sejamos
duas aprendizes distraídas
mexendo na mesma máquina misteriosa.
Mas descobri um segredo
quase doméstico
quase filosófico
quase ridiculamente simples:
bom humor.
Ele funciona
como aquele lubrificante esquecido
no fundo da caixa.
Passo um pouco
nas engrenagens do dia,
nas dobradiças do destino,
no rangido das preocupações.
E então —
milagre pequeno, porém suficiente —
o mundo
volta a girar
sem reclamar tanto.
Talvez viver seja isso:
não consertar tudo,
não entender tudo,
mas aprender
a rir suavemente
enquanto apertamos
os parafusos soltos
do universo.
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Autor:
Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 11 de março de 2026 07:35
- Comentário do autor sobre o poema: A vida não vem com tutorial: acordamos todos os dias diante de um conjunto confuso de escolhas e emoções, tentando descobrir qual atitude resolve o que está quebrado por dentro. Às vezes precisamos de calma para lidar com algo pequeno; outras, de coragem para desmontar problemas inteiros e entender como eles funcionam. No caminho, exageramos, pressionamos demais as coisas e criamos novos nós sem perceber. Mas quando o humor entra em cena, ele suaviza os atritos do dia e faz tudo rodar um pouco melhor. Talvez viver seja justamente isso: aceitar que estamos aprendendo enquanto ajustamos, com leveza, as peças soltas da nossa própria história.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Luana Santahelena, Sezar Kosta

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