Luana Santahelena

Manual Invisível para Reparos na Alma

A vida parece

um grande kit de ferramentas

sem manual de instruções.

 

Abro a caixa pela manhã

como quem abre uma pergunta.

 

Dentro dela

há martelos silenciosos,

parafusos tímidos,

e uma chave de fenda

que insiste em olhar para mim

como se dissesse:

 

— hoje vamos tentar de novo?

 

Confesso

que nunca sei exatamente

qual ferramenta usar.

 

Um dia

uso paciência

para consertar um problema pequeno

como quem cola uma xícara lascada.

 

No outro

preciso de coragem

para desmontar um drama inteiro

parafuso por parafuso

como quem desmonta um relógio

esperando que o tempo

não fique ofendido.

 

Às vezes

aperto demais as coisas da vida.

 

Aperto decisões,

aperto expectativas,

aperto silêncios.

 

E pronto:

nasce um problema novinho

com cheiro de oficina.

 

Nessas horas

sento no chão da existência

e converso comigo mesma:

 

— Será que a vida também

está aprendendo a me usar?

 

Talvez sejamos

duas aprendizes distraídas

mexendo na mesma máquina misteriosa.

 

Mas descobri um segredo

quase doméstico

quase filosófico

quase ridiculamente simples:

 

bom humor.

 

Ele funciona

como aquele lubrificante esquecido

no fundo da caixa.

 

Passo um pouco

nas engrenagens do dia,

nas dobradiças do destino,

no rangido das preocupações.

 

E então —

milagre pequeno, porém suficiente —

 

o mundo

volta a girar

sem reclamar tanto.

 

Talvez viver seja isso:

 

não consertar tudo,

não entender tudo,

 

mas aprender

a rir suavemente

enquanto apertamos

os parafusos soltos

do universo.