O Poço, lugar do encontro

Sinvaldo de Souza Gino

O Poço, lugar do encontro

 

A tarde puxava o sol pra beira do monte  

e as mulheres desciam a ladeira  

com carotes vazios na cabeça  

e conversa cheia nos lábios.  

 

Era hora de puxar água fresca  

pro banho morno, pro fogo de cedo,  

pra panela do dia seguinte,

antes que o galo e o patrão acordassem.  

 

No brocal gasto, corda a gemer,  

o poço virava sala de visita:  

“Bença, comadre — o feijão subiu?”  

“Subiu, mas Zé fugiu pro gado.”  

Enquanto o balde enchia,  

enchiam-se novidades, queixumes, acertos.

 

Chegavam os homens com as bestas: 

água pro curral, pros carneiros, pro pó da estrada.  

Olhar cruzado no reflexo trêmulo,  

sorriso dado como quem não quer nada:  

Jacó e Raquel tinham feito igual,  

Rebeca sorriu a Eleazar na mesma borda.  

Até Jesus, ao meuo dia, descansou no poço  

e trocou água viva por história.

 

Ali se marcava namoro,  

ali se espionava sogra,  

ali a moça ficava mais tempo  

só pra lavar a lata duas vezes.  

Era praça sem coreto,  

shopping sem vitrine,  

boate sem luz,

só lua no balde e pele úmida no ar.

 

Hoje o poço secou, tem tampa de cimento.  

Celular ocupa a fila,  

e a água vem fria no cano.  

Mas quando a tarde esquenta  

e falta assunto na casa,  

alguém ainda diz:  

— “Vamos ao poço?”  

E ri, sabendo que o encontro  

nunca foi pela água,  

mas pela sede.

 

 

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 8 de março de 2026 11:12
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 2


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