O Poço, lugar do encontro
A tarde puxava o sol pra beira do monte
e as mulheres desciam a ladeira
com carotes vazios na cabeça
e conversa cheia nos lábios.
Era hora de puxar água fresca
pro banho morno, pro fogo de cedo,
pra panela do dia seguinte,
antes que o galo e o patrão acordassem.
No brocal gasto, corda a gemer,
o poço virava sala de visita:
“Bença, comadre — o feijão subiu?”
“Subiu, mas Zé fugiu pro gado.”
Enquanto o balde enchia,
enchiam-se novidades, queixumes, acertos.
Chegavam os homens com as bestas:
água pro curral, pros carneiros, pro pó da estrada.
Olhar cruzado no reflexo trêmulo,
sorriso dado como quem não quer nada:
Jacó e Raquel tinham feito igual,
Rebeca sorriu a Eleazar na mesma borda.
Até Jesus, ao meuo dia, descansou no poço
e trocou água viva por história.
Ali se marcava namoro,
ali se espionava sogra,
ali a moça ficava mais tempo
só pra lavar a lata duas vezes.
Era praça sem coreto,
shopping sem vitrine,
boate sem luz,
só lua no balde e pele úmida no ar.
Hoje o poço secou, tem tampa de cimento.
Celular ocupa a fila,
e a água vem fria no cano.
Mas quando a tarde esquenta
e falta assunto na casa,
alguém ainda diz:
— “Vamos ao poço?”
E ri, sabendo que o encontro
nunca foi pela água,
mas pela sede.