Cacos de Vidro

Sinvaldo de Souza Gino

Cacos de Vidro

Vendeu a alma em noite sem luar —  
promessa doce, contrato sem nome,  
felicidade embalada em ouro barato  
e um sorriso que rachou antes do amanhecer.  

Agora anda espalhando cacos de vidros  
onde antes havia rosto:  
perdeu a imagem no reflexo quebrado,  
a beleza — estilhaço sob o pé do tempo,  
a pureza — pó que o vento varreu,  
a vida — um mosaico que ninguém monta mais.  

Riu alto na festa do diabo,  
mas o eco voltou em cortes finos:  
cada passo, um tilintar de memória,  
cada olhar, um caco que ainda fere  
quem tenta recolher seus pedaços.  

Feliz?  
Só no instante em que assinou o vazio.  
Depois… só o chão úmido e frio  
cobrado de brilhos que já não iluminam nada.  

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 6 de março de 2026 17:12
  • Categoria: Fantástico
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Sinvaldo de Souza Gino
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! Este poema é um mergulho visceral no arrependimento e na fragmentação do eu. O ouro barato e o sorriso que rachou simbolizam a natureza efêmera da felicidade baseada em aparências ou ganhos fáceis. A noite sem luar já anunciava o desfecho sombrio de um contrato que não entrega o que promete. A imagem do rosto substituído por cacos de vidro é impactante. O eu lírico perdeu a própria imagem (a noção de quem é) e tornou-se algo perigoso: quem tenta ajudá-lo (recolher seus pedaços) acaba ferido pelo que restou. O tilintar de memória transforma as lembranças em dor física. A festa acabou e o que restou não foi apenas o vazio, mas um chão úmido e frio onde o brilho não ilumina, apenas corta. É uma poesia de tom existencialista e denso, que funciona como uma parábola moderna sobre a perda da essência humana. Parabéns pelo poema! Um abraço poético.



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