Sinvaldo de Souza Gino

Cacos de Vidro

Cacos de Vidro

Vendeu a alma em noite sem luar —  
promessa doce, contrato sem nome,  
felicidade embalada em ouro barato  
e um sorriso que rachou antes do amanhecer.  

Agora anda espalhando cacos de vidros  
onde antes havia rosto:  
perdeu a imagem no reflexo quebrado,  
a beleza — estilhaço sob o pé do tempo,  
a pureza — pó que o vento varreu,  
a vida — um mosaico que ninguém monta mais.  

Riu alto na festa do diabo,  
mas o eco voltou em cortes finos:  
cada passo, um tilintar de memória,  
cada olhar, um caco que ainda fere  
quem tenta recolher seus pedaços.  

Feliz?  
Só no instante em que assinou o vazio.  
Depois… só o chão úmido e frio  
cobrado de brilhos que já não iluminam nada.