Cacos de Vidro
Vendeu a alma em noite sem luar —
promessa doce, contrato sem nome,
felicidade embalada em ouro barato
e um sorriso que rachou antes do amanhecer.
Agora anda espalhando cacos de vidros
onde antes havia rosto:
perdeu a imagem no reflexo quebrado,
a beleza — estilhaço sob o pé do tempo,
a pureza — pó que o vento varreu,
a vida — um mosaico que ninguém monta mais.
Riu alto na festa do diabo,
mas o eco voltou em cortes finos:
cada passo, um tilintar de memória,
cada olhar, um caco que ainda fere
quem tenta recolher seus pedaços.
Feliz?
Só no instante em que assinou o vazio.
Depois… só o chão úmido e frio
cobrado de brilhos que já não iluminam nada.