O amor entra, muda os móveis emocionais de lugar
e ainda diz que é para o nosso bem.
***
Fico parada na sala de mim
segurando um vaso antigo
que eu jurava combinar com a parede da minha coragem.
***
Ele não pede licença.
Arrasta o sofá das certezas
para perto da janela das vertigens
e instala uma poltrona exatamente
onde eu costumava tropeçar nos meus orgulhos.
***
Reclamar não adianta — ele sempre acha uma fresta.
Já tentei vedar as janelas com argumentos,
mas o amor tem o hábito irritante
de ser vento.
***
Pergunto a mim mesma:
quem autorizou essa reforma?
E minha voz interior, com um sorriso quase maternal,
responde:
você, quando desejou não morrer de rotina.
***
O amor me desmonta
como quem reorganiza uma estante
e descobre livros que eu não sabia ter escrito.
***
No final, você olha em volta e admite:
ficou melhor assim.
***
Ainda estranho a luz batendo diferente
sobre o tapete da minha antiga solidão.
Mas há espaço para dançar.
***
E se tropeço,
já não é nos móveis —
é na alegria inesperada
de caber em mim mesma.
Dizem que o amor é deixar ir
Não tenho essa maturidade toda
Sei que o amor é sublime
É rosa, é flor é jardim
Existe amor no olhar, no tocar
Amor que escorre em lágrimas
Amor das noites mal dormidas
Amor de toda uma vida
O tempo e o amor juntos
Me tratam como menino.
Shmuel
O Amor mexe com os sentimentos
quando você pensa que sabe de tudo
ele te surpreende com algo mais.
É aconchego, é cuidado é estar
presente quando mais se precisa,
é ferida que dói e não se sente.
As vezes o coração fica ferido
com o Amor, mas é suportável quando
se Ama de verdade.
Mesmo estando longe está perto
e existe sempre uma razão a
mais para se viver.
Andamos tanto tempo no escuro
acreditando que a noite era um decreto,
e que o teto baixo era nossa única medida.
Veio o amor, quebrou as telhas,
arrastou as certezas para o quintal
e nos deixou nus, no meio do nada.
-+-
Houve medo, sim.
O medo de quem perdeu o mapa e a mobília.
Mas, no silêncio da casa nova,
nossos dedos tocaram o centro do peito
e um clique seco ecoou na alma.
-+-
A sala inundou-se de um sol que não vinha de fora.
E o maior susto não foi a bagunça,
nem o espaço novo para dançar.
O maior susto — o mais bonito de todos —
foi perceber que o fósforo, o pavio e a chama
sempre foram propriedade nossa.
-+-
O amor só abriu a porta.
Quem decidiu não mais viver no escuro...
fomos nós.
O amor chegou como quem não traz ferramentas —
e ainda assim derrubou paredes com a ponta dos dedos.
Eu vi meus hábitos empilhados no corredor,
os “amanhã eu faço” virando caixas sem etiqueta,
e um retrato antigo do meu medo
caindo de frente, sem moldura, no chão.
Tentei recolher o que prestava:
um resto de orgulho, um manual de controle,
três chaves enferrujadas de portas que eu nem lembrava.
Mas ele já tinha encontrado o interruptor escondido
atrás do quadro das desculpas
e acendido a claridade sem pedir opinião.
De repente, a casa de dentro ficou grande demais
para a vida pequena que eu vinha morando.
As minhas culpas, que antes ocupavam a sala inteira,
viraram só um banco encostado na parede,
e a saudade — essa visita que sempre chegava cedo —
aprendeu a esperar na varanda, em silêncio.
O amor abriu armários que eu chamava de “passado”
e tirou de lá uma coragem dobrada, cheirando a naftalina,
como se fosse roupa de festa guardada para um dia impossível.
Eu disse: “isso vai dar bagunça”.
Ele respondeu com a calma de quem entende o caos:
“bagunça é quando a vida quer caber e não cabe”.
Então eu deixei cair no chão a tentativa de ser invulnerável,
e ouvi o barulho bom de algo quebrando por dentro:
não era eu — era a casca.
E, quando a noite voltou para testar seus velhos decretos,
já não encontrou teto baixo,
nem encontrou tranca nas janelas:
encontrou dança,
encontrou a minha voz aprendendo a dizer “fica” sem prisão
e “vai” sem abandono,
encontrou um coração com cicatriz e ventilação,
e uma placa nova na porta da frente, escrita à mão:
aqui dentro a luz não é visita — é escolha.
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DESALOJAR-SE? QUASE!
-
O que mais me surpreende, além das limitações,
São válvulas de escape das minhas convicções
Se bato no meu peito como se eu tudo pudesse
Ouço voz no coração: Poeta aprenda e não se esquece
'O maior dos sentimentos rege nosso coração
Um Amor que te acolhe, o outro pesa emoção
-
Surgindo de mansinho, arrebatam como presas
Entre beijos e carinhos, vestes de delicadezas,
Surrupiam nossas horas que trocamos pelas suas
Nosso sol se vai embora, e escondem nossa lua
Traz, as vezes, na memória, alegrias e tristezas
E nos vemos como áquele que vagueia pela rua
-
Um tiquinho de mistura, como num alojamento
Se bom nado se mistura dores no afogamento
Que fazer na vida assim se não for adivinhão ?
Não existe, no romance só braseiro sem paixão
Aviva e também queima; dá lágrimas e sorriso
Eu, d'um poema abdicar? Te direi se for preciso:
-
Se o sol nasce pra todos, um dia ele se oculta
Não me interpretes mau, por favor pare e escuta
Amor manda e desmanda: um requer outro reluta
Quem se alegra pede bis quem sofreu ri e refuta
Tal a alma do poeta, o amor quando perscruta
Num repara e dá alerta e no outro diz 'permuta'
-
Limitado mas convicto! qual a minha decisão?
Declarar o que suponho já me deu complicação
Peguei malas e me fui pelo 'mundo do meu Deus'
Deparei com os seus versos sugerindo-me escape
Pareceu-me carteado amontoado com os naipes
Tu achava esconderijos e eu procurava os meus
-
Descobri na sugestão de um certo 'mui amigo'
Se o poeta quer descanso e se 'vê meio á perigo'
Fuja para qualquer lado, modifique suas maletas
-
Aceitei a sugestão. Me apressei pra uma viagem
Abrindo minha mala, eu julguei ser sabotagem
Ao fundo encontrei: tantas folhas e canetas
- (elfrans silva)
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disseram que o amor é desalojar-se
não tenho a certeza disso
acho que é mais deleitar-se
ou até despojar-se
tudo de mau leva sumiço
mas será que o amor
tem definição?
não tem
não pode ter
o amor é apenas
para se viver
(Arthur Santos)
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- Autores: Bulaxa Kebrada (Pseudónimo, Shmuel, Rosangela Rodrigues de Oliveira, Sezar Kosta, Jairo Cícero, elfrans silva, Arthur Santos
- Visível: Todos os versos
- Finalizado: 18 de março de 2026 16:30
- Limite: 10 estrofes
- Convidados: Público (qualquer usuário pode participar)
- Comentário do autor sobre o poema: Amar é aceitar que a vida mexa na nossa estrutura interna e tire tudo do lugar que parecia seguro. A gente tenta manter controle, erguer defesas racionais, mas no fundo foi o próprio desejo de viver algo maior que abriu a porta para essa mudança. O que parecia caos revela novos espaços, novas versões de nós mesmas, como se descobríssemos talentos e sentimentos que estavam guardados. No fim, mesmo com a estranheza da nova paisagem, percebemos que a mudança nos deixou mais inteiras — e surpreendentemente mais livres.
- Categoria: Amor
- Visualizações: 17
- Em coleções: Poemas Mesclados.

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