Geração de Pedra

MAISA NALAPE

Sentados na porta, cobertos de pano,

ouvíamos histórias que vinham do rádio.

Noite adentro, passos de dança e riso,

um mundo simples, feito de encanto e improviso.

 

Pagávamos para ver a magia do cinema,

corríamos à casa vizinha para atender o telefone.

Voz do pai longe, em Portugal,

cassete gravada, devolvida com saudade e afeição.

 

A escola era livro, caderno e caneta,

sem luzes de ecrãs, sem atalhos de internet.

Faltas eram sentidas, colegas vinham buscar,

errar trazia medo, mas o respeito era lei a ensinar.

 

Palmatória se outro acertava a pergunta que erramos,

aprendíamos cedo o valor da disciplina e da vida.

Respeito aos mais velhos, à comunidade, à palavra,

era a pedra que nos formava, sólida e silenciosa.

 

Hoje corremos em mundos digitais,

mas aquele tempo vive em nós,

em histórias contadas,

em memórias que jamais se apagam.

  • Autor: MAISA NALAPE (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de março de 2026 17:38
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 29
  • Usuários favoritos deste poema: Arthur Santos
  • Em coleções: Maisa Nalape.
Comentários +

Comentários3

  • Vilma Oliveira

    Boa noite querida poetisa!
    Este poema é uma ode à nostalgia e ao contraste entre a simplicidade do passado e a pressa digital do presente. Ele destaca uma infância moldada pela presença física e pela escassez tecnológica, onde a comunicação era lenta e, por isso, mais valorizada (como as fitas cassete enviadas de Portugal).
    A obra não suaviza a rigidez da época, mencionando o medo e a palmatória, mas ressignifica essas experiências como pilares de uma disciplina e respeito que formaram o caráter daquela geração. É um retrato tocante de um mundo feito de encanto e improviso que, embora tenha ficado para trás, permanece como o alicerce emocional de quem o viveu. Meu abraço poético.

    • MAISA NALAPE

      Bom dia amada Poetisa!
      Que leitura tão terna e profunda você faz, é como se tivesse caminhado descalço pelas memórias do poema, sentindo cada pedra e cada perfume do tempo.
      Há, de fato, uma beleza quase sagrada na lentidão do ontem. As fitas que cruzavam o oceano, vindas de Portugal, carregavam mais que vozes: traziam saudade condensada, expectativa, silêncio respeitoso antes de apertar o “play”. Hoje, a mensagem chega em segundos — mas raramente repousa no coração com o mesmo peso. Seu abraço poético foi recebido e retribuído com gratidão e delicadeza.

    • Arthur Santos

      Saudades desses tempos de escola!
      Uma construção poética muito inteligente.

      • MAISA NALAPE

        Gratidão. É interessante como a poesia tem esse poder: faz-nos regressar a momentos do passado e olhar para eles com mais sensibilidade. Às vezes um simples verso é suficiente para abrir uma porta cheia de recordações.

      • Francisco Queiroz

        Parabéns! Senti-me completamente imerso, como se estivesse rebobinando uma fita cassete antes de devolvê-la. Deixo, com um abraço fraterno, toda a minha gratidão.

        • MAISA NALAPE

          Muito obrigado pelas suas palavras tão generosas! Fico mesmo feliz por saber que a experiência foi tão envolvente — essa imagem da fita cassete a rebobinar é simplesmente perfeita
          Um abraço fraterno de volta, com muita gratidão!



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