Tanque de Lata

MAISA NALAPE

No meio do pó da obra

e do cheiro de cimento quente,

havia um reino escondido.

 

Quando os homens iam almoçar

e o silêncio pousava sobre os tijolos,

eu e os meninos do bairro

invadíamos o nosso paraíso:

um tanque de lata

transbordando céu.

 

A água guardava o sol,

tremia dourada,

e nós mergulhávamos

como quem descobre o mar

pela primeira vez.

 

Risos espirravam mais alto que a água,

os pés batiam no fundo metálico,

o mundo era pequeno —

cabia inteiro

dentro daquele tanque.

 

Saíamos encharcados de luz,

a pele arrepiada,

o coração incendiado

de uma felicidade simples

que não sabia o nome

da palavra medo.

 

Ser criança

é morar por um instante

onde o tempo não manda,

onde a alegria é gratuita

e a memória nunca evapora.

 

O tanque era de lata —

mas para nós

era infinito.

Comentários +

Comentários2

  • Vilma Oliveira

    Olá poetisa! Boa noite! Seu poema é um reflexo do nosso
    cotidiano que se expressa através da profundidade oculta
    dos seus versos. Meus parabéns! Abraço fraterno.

    • MAISA NALAPE

      Ola poetisa! Muito obrigada pelas palavras tão generosas e pelo carinho.
      Fico imensamente feliz em saber que o poema tocou seu coração.
      Receba meu abraço fraterno e minha gratidão!

    • Arthur Santos

      O tempo de criança é um tempo belo que fica para sempre marcado nas nossas vidas.
      Imagens poéticas muito fortes e visuais.

      • MAISA NALAPE

        Lembranças boas de infância permanece em mim.



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