No meio do pó da obra
e do cheiro de cimento quente,
havia um reino escondido.
Quando os homens iam almoçar
e o silêncio pousava sobre os tijolos,
eu e os meninos do bairro
invadíamos o nosso paraíso:
um tanque de lata
transbordando céu.
A água guardava o sol,
tremia dourada,
e nós mergulhávamos
como quem descobre o mar
pela primeira vez.
Risos espirravam mais alto que a água,
os pés batiam no fundo metálico,
o mundo era pequeno —
cabia inteiro
dentro daquele tanque.
Saíamos encharcados de luz,
a pele arrepiada,
o coração incendiado
de uma felicidade simples
que não sabia o nome
da palavra medo.
Ser criança
é morar por um instante
onde o tempo não manda,
onde a alegria é gratuita
e a memória nunca evapora.
O tanque era de lata —
mas para nós
era infinito.