MAISA NALAPE

Tanque de Lata

No meio do pó da obra

e do cheiro de cimento quente,

havia um reino escondido.

 

Quando os homens iam almoçar

e o silêncio pousava sobre os tijolos,

eu e os meninos do bairro

invadíamos o nosso paraíso:

um tanque de lata

transbordando céu.

 

A água guardava o sol,

tremia dourada,

e nós mergulhávamos

como quem descobre o mar

pela primeira vez.

 

Risos espirravam mais alto que a água,

os pés batiam no fundo metálico,

o mundo era pequeno —

cabia inteiro

dentro daquele tanque.

 

Saíamos encharcados de luz,

a pele arrepiada,

o coração incendiado

de uma felicidade simples

que não sabia o nome

da palavra medo.

 

Ser criança

é morar por um instante

onde o tempo não manda,

onde a alegria é gratuita

e a memória nunca evapora.

 

O tanque era de lata —

mas para nós

era infinito.